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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Felicidade diáfana


A felicidade é mesmo uma coisa muito intrigante, quase perturbadora!
A dor, a tristeza, o sofrimento, são sentimentos cujo peso é quase impossível de carregar, já a felicidade é leve, diáfana, um sopro, uma brisa, e se não estivermos bastante atentos, ela passa sem que nos apercebamos.

Alguns meses depois de vender minha empresa, fiz uma sociedade para abrir uma outra, mas como essa nova empresa é de prestação de serviços, não contava com todas as exigências necessárias para a abertura. Precisamos de fazer cursos técnicos, estágios e diversas outras formalidades que acabou arrastando a abertura da empresa já por quase um ano. Nesse ínterim, tive que arrumar um emprego, não só pela necessidade do estágio, mas também para fugir do poço, da cama, de casa, da morte.

Arrumei o estágio numa empresa que exige do estagiário dedicação de 12/14 horas, 6/7 dias por semana, e por conta desse horário despropositado, acabei por deixar o poço para trás.

Além do horário absolutamente impossível, a empresa tem uma política de terrorismo, que acabou por me fazer trocar a depressão por raiva, e isso foi extremamente positivo. Passava pelo menos metade do tempo odiando os despropósitos.

Fiquei um tempo enorme sem ver as pessoas que amo, e dando desculpas de toda sorte para a minha ausência nas festas de família e reuniões de amigos.

Esta ausência de tudo, de todos, da minha própria vida, me obrigaram a deixar tudo para depois, e agora que novamente volto, não tenho vontade de rever nada, quero apenas deixar aquele degrau em que fiquei tanto  e tanto tempo, e continuar a subir, ou descer, sei lá. 

"Sempre primavera mas nunca as mesmas flores"

Ditado chinês


"Em nossas mentes, as mudanças estão sempre associadas à perda e ao sofrimento; e quando elas chegam, procuramos nos anestesiarmos o máximo possível.
Concluímos teimosamente, e sem questionamentos que a permanência garante a segurança e a impermanência não. Mas, de fato, a impermanência é como algumas pessoas que encontramos na vida, difíceis e perturbadoras de início, mas muito mais amigáveis e menos enervantes do que imaginávamos, a medida que as conhecemos".

ZEN

Menopausa


Meu humor é tão instável que chega a dar vergonha!
Uma coisa ruim qualquer, me joga ao chão, e esteja aonde estiver as lágrimas descem sem controle algum, uma porcaria, fico desesperada, depois um outro acontecimento me leva para outro polo e fico extremamente feliz!

Passo dias afundada chorando só pensando em morrer, e de repente, consigo me safar da maldita areia movediça, falo um monte de palavrões para mim mesma, vou à luta e digo que acabou, que não voltarei mais ao lodo, e no dia seguinte lá estou eu de novo, só com o dedinho pra fora.

Essa fragilidade me dá a certeza, de que as coisas não são tão ruins assim, e que a minha visão é que está completamente desfocada.
Os dias que escrevo é porque estou melhor. O papel é meu psicólogo, lendo o que escrevi, me “ouço“, corrijo o foco.

A irritação é capítulo à parte. Tem dias que já acordo irritada, um mal estar indefinido, amplo, geral e irrestrito, um desespero que me acompanha durante todo o dia.

Os dias que estou assim procuro não sair, pois temo que aconteça algo na rua que de alguma maneira me provoque!
Tem outros dias, que estou bem, mas de repente, assim como as ondas de calor, me sobe uma onda de irritação e quem estiver por perto toma. Não sei o que é pior, se a onda de irritação que me faz dizer sandices, ou aquela sensação horrível de culpa e descontentamento comigo mesma depois da explosão., que literalmente me levam ao chão.

Tenho gastado tempo, dinheiro e saúde com remédios que ou não ajudam em nada, ou melhoram alguns sintomas, mas aparecem outros tão ou mais graves, como por ex. a insônia, que piora e muito a irritação.

Os dias, as noites, são intermináveis, o que ajuda é que uma boa parte do tempo passo meio fora do ar, como se estivesse dopada. Muitas vezes acordo sem saber se é dia ou noite, e não sei se já comi, se é hora de jantar ou tomar café.


É preciso ter o caos dentro de si para gerar uma estrela dançante.

Friedrich Nietzsche

Auto fidelidade


Já há algum tempo desisti da segurança de me sentir bem para me sentir viva.

Desisti do papel de boa moça para com as pessoas, para assumir o papel de boa moça comigo.

De ser desagradável comigo, para agradar aos outros.

De me conformar com o pouco, para não escandalizar os outros.

De trair os meus sentimentos, para não magoar os dos outros.

De trair o que eu penso, sinto, para não trair o que outros pensam, sentem...

Penso que não sou a primeira e que com certeza, não serei a última, mas é um trabalho tão árduo, duro, pesado e tão diferente do usual, tão inusitado para a mente pequena e comum dos que estão à sua volta, que às vezes bate as neuras. Será que estou mesmo certa? Será que vou conseguir chegar até o final disso? Quantas pessoas eu perderei, sentimentalmente falando, para chegar até o final disso? E no final depois de todas as perdas, será que vou achar que terá valido a pena?

Essas perguntas me devoram, mas quando olho pra trás e vejo o quanto já conquistei, paro de tremer e retomo o controle, equilibro-me de novo e continuo, e continuarei sempre, porque sei que esse é o caminho, e que uma vez tomado, não há volta possível.




terça-feira, 30 de outubro de 2018

Libido



Cheguei a uma conclusão, depois de muita cogitação, que por conta da menopausa, perdi completamente a libido. 

Aí vem o médico e diz que menopausa não perde libido que o que perde libido é a depressão. 

What ever, não tenho tido libido, e coincidência ou não, não me passa pela cabeça nem remotamente, resolver isso à custa de artifícios anti naturais. 

Senão vejamos: 
Tanto a mulher como o homem precisam de sexo, mas ninguém aguenta putaria por muito tempo, nem homem, de modos que vc acaba por se decidir a ter um relacionamento estável. 

Como estas são confissões de envelhecente, vou pular aquele segundo instinto do ser vivo que é o de procriar família e ir direto à idade que os filhos já estão casados e vc só precisa de um amor.

Então, descobri que esse amor só é necessário por conta do sexo. Sem libido, sem necessidade alguma de alguém do lado, pelo menos no meu caso. Pra quê um namorado nessa altura do campeonato? 

Passado o turbilhão primeiro da menopausa e de todas as perdas citadas, descobri que a solidão me encanta sobremaneira. 

Tanto os momentos bons como os ruins, são mais fáceis de passar, digamos assim, dá menos trabalho vai, tanto a comemoração, como a depressão. 
Posso entender agora, porque eu ouvia certas amigas mais velhas dizerem que quase entraram em parafuso, depois de um certo tempo que os filhos estavam casados, voltarem para casa depois de uma separação. 

Sofri como uma condenada essa fase do ninho vazio, e meus filhos, como todos os outros do planeta, nem tomaram conhecimento, porque têm suas vidas, e ter uma vida nos dias de hoje não é brincadeira, é trabalho pra 24 horas, mas agora, colho confortavelmente os frutos dessa solidão.

O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão.
Gabriel García Marquéz


segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Mulher Chorando


Apesar da nossa magnífica unicidade, quanta complexidade há num único ser!

A maneira como os pensamentos se desenvolvem pelo nosso cérebro, como evoluem, se transformam em outros, é simplesmente fantástico.

Há pensamentos que chegam e passam como nuvens num céu azul, totalmente desapercebidos. Chegam lentamente, e lentamente se vão, sem que façamos absolutamente nada para retê-los.

Outros há que chegam como tempestade, riscando nossas mentes como raios, ribombando como trovões, e assim como a tempestade também se vão.

Mas os piores, são aqueles que nascem do nada, e se instalam confortavelmente, como filhos em nossas casas, e nós, condescendentes, vamos deixando que fiquem, e criamos com eles relações, as mais diversas, e como irmãos compartilhamos histórias , e conversamos animadamente, rimos, choramos, amamos, odiamos...

Aquele quadro do Picasso, "Mulher Chorando", chorando formas geométricas, que fantástico!

Se fosse possível tirar para fora os nossos pensamentos, que forma será que teriam?

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Tormenta



O céu me chega calmo pela rede, nuvens varridas enfeitando o ar fresco/cálido da deliciosa noite de verão, em meu momento, porém, irrompem os raios, trovões, e o céu sufocado pelas pesadas nuvens grafite desaba e sou varrida pela violenta tempestade e ventania, anunciando tragédias, tirando-me do chão. 

Fim de época, era de furacões, faíscas rasgam o fim rápidas como pensamentos e furam o enigmático horizonte que vislumbro através do clarão.

E a tormenta, violenta, varrendo órgãos, arrancando árvores do chão, perfuram meu corpo em incisões tão profundas que chegam a outras encarnações.

Ah essa dor lancinante, comprimindo meu ar, revoltando meu mar, virando embarcações, transpassa a quinta dimensão.

Sentimentos indizíveis, selvagens, me trazem sensações atrozes, de tragédia, de explosões, de lava de vulcão, escorrendo, incendiando, transformando meu ser em completa erosão.

Enchem meus olhos de sangue, turvam-me a visão, temem meu sólido chão.
ah é assustador!

A ansiedade e o medo envenenam o corpo e o espírito.

George Bernard Shaw

Infiltração




Esses últimos anos, como egressa de pavoroso pesadelo perambulei pela vida. 

 

Meu corpo todo machucado, mãos e joelhos escalavrados das inúmeras tentativas de sair daquele abismo profundo que havia me sugado.

 

Meu corpo dormente, anestesiado, meu peito em chaga transformado, minha mente confusa, desesperada, minha alma para sempre mutilada.

 

Na boca aquele gosto amargo salgado que sentem os baleados.

Na garganta um travo daqueles que sentem os soldados ao descobrir suas vítimas aos seus pés executadas.

O Canto dos Bem-te-vis





Saio de casa e dou de cara com um dia tão maravilhoso, que quase parecia um insulto às minhas pequenas mazelas. Respiro o ar puro e coloco os óculos escuros para que meus olhos possam suportar a claridade magnífica do sol. Fico pensando que nada pode nublar um dia ímpar como este.

Abro os ouvidos para os sons, quero aproveitar tudo. Os Bem-te-Vis fazem uma algazarra e eu paro maravilhada para ouvi-los.

Desço a calçada da minha rua com o corpo leve e uma sensação boa de simplesmente estar vivo. "Oh!! coisa maravilhosa, simplesmente andar sobre a terra!"

De repente, viro a esquina e meus olhos imediatamente acham um cachorro de rua que eu não via há alguns dias. Este cachorro me incomoda imenso! Ele tem uma expressão humana de perdedor. Uma expressão de abatimento, cansaço de estar vivo, desesperança, desistência...

Mas naquele dia, exatamente naquele dia, em que eu me sentia tão bem, aquele cachorro, que além da expressão, agora estava com sarna, aquele cachorro, naquela estupenda manhã, aquele cachorro me fez sentir estúpida!

Passei rápido por ele, porque tinha medo da contaminação, ah não eu não deixaria que um cachorro, que esse cachorro e sua expressão de desistência me fizessem perceber o estupor da vida e desistir dela também...

Aquele cachorro, que eu ia deixando para trás em rápidas passadas, continuava dentro de mim, tão presente como estava há alguns segundos atrás diante dos meus estarrecidos olhos. Aquele cachorro a me perseguir, me dava conta da minha imensa, insuportável covardia.

Por que eu não dava meia volta até a farmácia, comprava um remédio qualquer, perdia duas horas do meu "precioso" tempo e voltava até ele para amenizar um pouco daquele sofrimento? Ah! aquele sofrimento., dele ou meu? Meu e dele? Só meu!

Por que não me voltava para mim mesma e me curava daquilo que me fazia tão mal, que me doía tanto?
Porque aquele cachorro e seu jeito humano tão desesperançado me davam conta de tantos sentimentos horríveis naquela manhã radiosa com trilha sonora dos Bem-Te-Vis.

Mas eu avancei rápido, pensava num monte de ações, mas a única que eu levava adiante era a de chegar no ponto do ônibus e ir embora rápido daquela cena, fugir dela, pensar rápido em um monte de coisas fúteis para fugir de mim mesma e da cobrança daquela sarna que me dilacerava a carne. E aquela expressão... ah! aquela expressão me torturando até as entranhas a me dar conta que a dor da vida sobrepujava qualquer raio de sol ou canto de Bem-Te-Vis.

Outros dias ainda, muitos deles eu encontrei com o meu inimigo sarnento, indiferente à vida, e a inimizade que havia conquistado. Outros tantos dias ainda, passei incólume, rápida, violentando meu ser, por não dar vazão à necessidade imperiosa de ação, que me libertaria da covardia e da contaminação e da dor.

Nada fiz até que o cachorro desapareceu por fim, deixando-me com uma sensação de derrota tão profunda que há tempos não ouço mais os Bem-Te-Vis.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Medalha


No meu espírito sua lembrança suave, pelo meu ser  flutuando...
aonde você meu mestre aonde?

Minha vida nesses anos a normalidade voltando, sua ausência a duras penas
no cotidiano se incorporando.

No começo a descrença a impossibilidade de acreditar na sua partida, mas tempo passado, tanto caminho percorrido, tanta coisa acontecida, o impossível agora, é acreditar que você tenha de fato
conosco estado algum dia.

Às vezes penso que foi apenas um lindo maravilhoso sonho.
Aprendi a reinventar a vida para não sucumbir a ela sem a sua presença.

Fui inventando soluções mágicas mirabolantes, e rapidamente as assimilava, de medo de as perder também, aqui chegamos nós, tantos anos depois...

Como pode meu mestre, você ter me ensinado tanto?

Transformar o sabor de derrota que me ficou, como se disputássemos uma medalha com a vida, onde quem vai perde, quem fica ganha.

Dois nós me sufocam: da sua perda por  ter ido, da minha "vitória" por ter ficado.

Transformar isso, esse o meu grande desafio!


"Pois não caminha sozinha a vida, a morte é seu consorte"  Rodrigo Rodrigues

Infância



Desejo de ser criança outra vez... 
Subir em árvores comer fruta madura colhida no pé, de correr atrás dos peixes nos rios, de bichos nos matos, de pipa nas ruas, de balão em todo e qualquer lugar.

Do jogo de bolinha de gude, da disputa das melhores figurinhas no bafo, de jogar pedrinha com saquinhos feito de tecido e recheado com arroz, e de rodar o pião. 

De descer pela ladeira em louca disparada em bote de folha seca de palmeira ou carrinho de rolimã. 

Das noites de verão estreladas, da Lua cheia dourada, das chuvas sem medo pela enxurrada, e depois do banho, leite com canela e chifre ralado, bem quente pra não ficar constipado. 

Dos compadres varando madrugada ao redor da fogueira de São João. 
Dos fogos, balão chinesinho, pipoca, batata doce, do proibido quentão.

Do balé das andorinhas ao entardecer, do cheiro do cachimbo do meu pai fiscalizando a plantação ou acocorado no fogão à lenha contando “causos” de assombração...

Peteca, estilingue, tamborete, perna de pau, pé de lata, bola de meia, taco de cabo de vassoura, e as conferências nos topos das árvores, intermináveis! 

Família reunida, mesa posta pro natal... 
Que doce, intraduzível, inesquecível tempo bom!

Retrospectiva

Houve um tempo em que vivi intensamente a vida.

Vivi deste lado os amores, rancores, emoções, ganâncias, dores de quem está vivo, com todos vivos à sua volta.

Quando você partiu também parti eu para dentro da sua sepultura.

Passei então a viver intensamente a difícil e insuspeita “vida” dos mortos.

Uma morte/vida de interrogações, angústia, incertezas e a mais profunda dor.

E aos poucos, aquele gélido frio do gramado da sua sepultura, das árvores, das flores do cemitério em todo o meu ser até os ossos, foi se infiltrando.

Sentia todas as imaginárias dores, a desesperança, a descrença do seu possível suplício, o desespero de quem está indo vendo os que estão ficando. Vivia a certeza do sofrimento de ter ficado e, de quebra o imaginário de como você se sentia por ter ido. 

Passei então a viver dupla vida, e a minha, tão ou mais fúnebre do que a sua.

Em casa, no seu quarto, seu armário guardando suas roupas, revistas, livros toda sua história.

Suas poesias com tinta ainda fresca repousando indiferentes nas gavetas da escrivaninha.

Sua cama desfeita ainda conservando o calor, o cheiro do seu corpo. Seu tênis embaixo da prancheta

a denunciar sua presença ainda no ar, suspensa, a nos encher de dor, espanto.

Minha família, como espectros, pela casa caminhando. 

Arrastava minha i​n​competência, minha perplexidade, e todo o imenso ódio que me consumia, todas as tardes, pelas alamedas floridas, surpreendentemente bonitas do lugar que o acolhia.

Alternava momentos de intenso ódio em que eu lutava para tentar descobrir onde você estava, porque havia sido de mim tão covardemente arrancado, para outros de completa prostração, onde só o que me ocorria era acabar com a minha própria vida para ir ao seu encontro.

O mundo que eu vivia com você para supostamente lhe fazer companhia, não era diferente da realidade do meu. O seu mundo que eu imaginava, era de mortos, fantasmas, caveiras, e o meu era a luta Quixotesca que eu travava diariamente para tirá-lo de lá.

Elaborava mil possibilidades de me tirar do ar, fugir daquela dor, daquele horrível sepulcro em que vivia, para finalmente desbravar esse desconhecido mundo que o havia tão covardemente de mim  arrancado, mas me acovardava sempre e achava que os antidepressivos é que me tiravam as forças, portanto, era urgente parar, mas as tentativas fracassavam sempre, porque a dor era por demais insuportável, e voltava à eles derrotada.

Quatorze meses haviam se passado e até hoje, só consigo me lembrar naquele ano, das tardes inteiras passadas naquele cemitério, o resto dos dias, das noites, o que fazíamos, somente alguns 3 ou 4 flashes conservo, e  finalmente, após tantas idas e vindas a centros, igrejas, sinagogas, à procura de ajuda, percebi que ninguém poderia me ajudar, só eu mesma é que poderia fazer algo, e foi o que fiz. Finalmente consegui forças para tirar os comprimidos e assumir novamente minha vida.

A literatura me salvou, e através das dezenas de livros consumidos cheguei ao Zen, e a ele devo minhas mais estimulantes descobertas. Demorei ainda mais seis anos para conseguir sair definitivamente do luto e finalmente ressuscitar deste sofrimento, que é o pior que um ser humano pode passar.


O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte.

Friedrich Nietzsche



Vou-me embora do Centro



Vou-me embora do Centro
aqui não conheço ninguém
aqui tenho tudo que preciso
mas não sou amiga do rei
Vou-me embora do Centro

Vou-me embora do Centro de Sampa
aqui eu não sou feliz
aqui os mendigos e viciados
fazem da existência uma aventura
de tal modo exasperante
que Kassab, prefeito
e depois falso ministro
Teve seus bens bloqueados
por acusações de caixa 2
pela empreiteira Odebrecht

E como faço ginástica
ando de metrô, de ônibus
subo e desço ladeiras
tomo banhos de chuva

E quando fico cansada
ligo a televisão
para ver novamente as misérias
que aqui no centro
tem ao vivo à exaustão
vou-me embora do centro

O Centro de Sampa tem tudo
é outra civilização
tem camelôs chineses
nortistas e bolivianos
notebook e vídeo game
telefone celular
No centro tem de tudo
é só chegar e comprar

Tem crack à vontade
tem gente que vem pra fumar
tem prostitutas medonhas
tem gente que consegue encarar

E quando eu fico triste
mais triste de não ter jeito
e quando de noite me dá
vontade de me matar
– Aqui sou incógnita –
aqui não conheço ninguém
vou passear no viaduto
até a vontade passar

Vou-me embora do Centro