Translate

Translate

quarta-feira, 11 de maio de 2022

INFÂNCIA

 

Nos meus tempos de meninice, não havia nada mais fora de moda do que criança.

Criança não fazia perguntas, não dava opinião, não alegrava a casa, não tinha direitos..., mas nós, crianças, éramos felizes assim!

Eu tinha um mundo que era só meu, independente do dos adultos, e isso era liberdade, felicidade total.

Juntamente com uma amiga índia, andávamos pelos matos, comíamos frutas verdes, nadávamos nos rios, corríamos atrás dos bichos, brigávamos, batíamos, apanhávamos e chegávamos em casa como se nada tivesse acontecido. 

Ninguém perguntava aonde eu ia, o que fazia, se sonhava, o que queria.

Chegava em casa tinha água para tomar banho, comida na mesa e cama para dormir, que mais precisaria uma criança? 

Vivi a minha infância toda sem brinquedos, sem calçados e com apenas um par de roupas, mas protegida por essa invisibilidade fui perdidamente feliz! 

Não me lembro de ninguém ter me ensinado a que horas eu tinha que me levantar, ou ir pra escola, ou fazer os deveres da casa, eu apenas sabia o que tinha que fazer e fazia e ninguém perguntava nada, e depois de fazer tudo que precisava ser feito ia para a rua (ou melhor dizendo, para a selva) sem a necessidade de perguntar se podia ou não. Não havia ninguém para proibir ou dizer que horas tinha que voltar. Como os índios, me orientava pelo sol, e voltava para casa sempre no final da tarde, pouco tempo antes do meu pai chegar. 

Havia quatro adultos em minha casa, enquanto eu crescia, mas nenhum deles percebeu sequer por um minuto a minha presença. Nunca um carinho, jamais uma palavra de apoio, de elogio pelas excelentes notas que eu tirava, ou pela ajuda contumaz nos afazeres da casa, só pernas e bundas eram percebidas pelas varas de marmelo, por qualquer bobagem fora da rotina.  

Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como os outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar das fontes igual à deles;
e era outro o canto, que acordava
o coração de alegria
Tudo o que amei, amei sozinho.

Edgar Allan Poe