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terça-feira, 20 de novembro de 2018

Retiro

Faltam cinco minutos para as oito da noite.

Quando cheguei, embora estivesse no horário, todos já haviam entrado, e como não havia ninguém à volta, fiquei extremamente atrapalhada, com a minha malinha na mão, sem saber o que fazer. Finalmente encontro um monge, digo que não sei o que fazer, e ele calmo e sorridente me diz quase num sussurro: Imite!

As dependências do templo são enormes, após me perder por diversas vezes pelos seus labirintos, encontro o lugar onde deixar minha mala, troco de roupa, e aceita a sugestão de imitar todos os outros.

Primeiro zazen, e a única coisa que consegui foi usar toda a energia que me restava de uma semana de muito trabalho, para não dormir.

No outro dia, 5,30 da manhã, sino tocando, chamando para o zazen. Levanto rápida, troco o pijama e tento me entregar a meditação, mas minha cabeça ainda na loja, em casa, nos meninos, no meu amor.

Esforço-me loucamente para desligar e estar presente, em me envolver com o objetivo do retiro, apenas estar ali, eu comigo mesma, mas é impossível, meu ser voa para sentimentos outros, loja, casa, filhos, apartamento e as pradarias desse amor insano que me faz estranha a mim mesma.

Aos poucos, porém, aquele ambiente silencioso vai me envolvendo e o mundo dos homens, aos poucos, ganhando distância, a aquele ambiente, aquele silêncio, o objetivo que me trouxe me envolvendo, minha respiração se fazendo presente, as dores no corpo pelo inusitado da posição, as pessoas e coisas que estão ao redor...

À tarde começa a chegar uma leva de japoneses, alegres, coloridos, cada um com um prato. Não sei qual é o evento, mas me parece uma palestra. Um deles toca um órgão e canta uma canção que parece vir de muito longe. 

Encostado em dos lados do templo, tem um prédio de apartamentos, e em um deles alguém está ouvindo Pearl Jam. Sentada na escadaria do templo, ouço encantada, o som da algaravia dos japoneses e sua música distante e estranha, que se confunde com Last Kiss. 

Sorrio para mim mesma, saboreando a total diferença dos sons e sua incrível coincidência.

Outro dia, outra leva de japoneses, desta vez tem crianças também, acredito que deve ter em torno de cem pessoas. Chegam cheios de pratos, salgados e doces, vão se sentando e falando pelos cotovelos, enchem as enormes mesas do salão do templo.

15:00 horas, sentamos todos para a cerimonia do chá. O silencio é absoluto no templo, só cortado de quando em vez por um carro que passa.

Uma paz enorme me envolve, um silencio dentro de mim que ainda não havia acontecido desde que cheguei aqui, e que me proporciona um enorme bem estar.  

Que escolha maravilhosa a minha, ter me decidido por esse retiro, poder descobrir que posso silenciar sem desesperar. Fiquei lá participando da cerimônia em paz por estar em paz. 

15:30 de novo na escadaria do templo, observo que chega mais gente para a “festa”. 

16:00 horas há uma cerimônia do templo e os japoneses começam a entrar em absoluto silêncio.

O templo, com os seus amplos janelões abertos , a linda madeira do chão absolutamente limpa e encerada, a arquitetura ímpar e o cheiro de incenso me fazem flutuar leve, como se eu estivesse longe do meu corpo. 

A monja começa a cerimônia e lentamente vou descendo a meu corpo, tomando contato com o que estava acontecendo ali, e mesmo sem saber exatamente o que era, as palavras dela foram aos poucos me picando como espinhos e e precisei fazer um grande, um enorme, descomunal esforço para não soluçar. 

Não conseguia atinar com o motivo, só sei que chorava e chorava e os meus esforços para parar eram totalmente vãos. 

Somente depois descubro, A cerimônia era para um rapaz que havia morrido há um ano. Como minha dor se confundiu com a deles, não consegui atinar.

Volto para a escada, o som do apartamento ao lado agora é de Belchior, Como Nossos Pais. Desaba um enorme temporal. Adentro para a enorme sala de palestras do templo, cheio de mesas e cadeiras, que os japoneses ocupam totalmente. 

Escolho um cantinho e fico observando o temporal pelos vidros enormes e ouvindo a algaravia ininteligível das pessoas. 

Meu ser vazio, sem tristeza, sem alegria, sem pensamentos. Presto atenção no barulho e penso que o barulho é uma só voz  que atende pelo nome de barulho. Quando fazemos parte do barulho, não podemos ouvir essa voz porque afinal, somos ela, mas naquele momento que meu ser era silêncio, eu podia ouvir claramente. 

Que diacho de retiro é esse, com uma barulheira dessas? 

Acho que é isso mesmo afinal, estar dentro de si mesmo, apesar do que está acontecendo ao redor, mas que será que comemoram?

De repente localizo uma moça com uma criança que estava no templo aos poucos vou localizando o restante das pessoas que lá estavam. Tem uma mocinha muito jovem , quinze anos se tanto, toda atarefada indo e vindo, recolhendo copos, lavando louças e fico conjeturando se seria possível uma cena dessas numa festa ocidental.

Meus olhos a perscrutar tudo, acabam por achar um casal meio envelhecido, e então compreendi, a comemoração era pelo aniversário de morte do rapaz, e aqueles eram seus pais. Me deu uma vontade enorme de ir lá abraçá-los e dizer que entendo.

Choro copiosamente, mas não sou notada, e as pessoas, aos poucos, começam a deixar o recinto junto com a chuva e em poucos minutos a sala está novamente vazia, exatamente do jeito que estava quando chegaram, nem uma cadeira fora do lugar, nem um papel no chão, nem um talher na pia. Quanto a aprender com esse povo!

22 horas, a monja me recebe numa sala com luzes de velas. Sinto-a imponente, mas próxima.
Pergunto o que aquelas pessoas comemoravam - os anos de vida que compartilharam com ele
O que tenho que aprender com a morte do meu filho? - impermanência!
Aquela noite dormi leve, sem sonhos.

Terceiro dia no templo, sinto-me em Avalon, a terra dos homens cada vez mais longe, e eu cada vez mais leve.

Início da noite, o zazen começa a pegar pontos cada vez mais dolorosos e profundos, daqui pra frente o meu trabalho fica cada vez mais árduo, difícil e lento. As questões do cotidiano começaram lentamente a se afastar e no domingo já não me pertenciam mais, estavam definitivamente do lado de fora do templo. Não me movimentavam, estavam fora de mim, parecia que não faziam mais parte do meu ser. Trabalhar as emoções assim fica muito mais fácil e eu penso que maravilha deve ser se internar mesmo num monastério por um ano por ex.

Novamente na escada ouvindo o rádio do apartamento ao lado, longe, como longe tocavam os sinos da igreja ouvidos em Avalon. Madona canta Celebration, e o inusitado daquele som naquele lugar me pareceu tão cool.

Quarta-feira, meio dia, meu amor me espera do lado de fora, despeço-me da monja dizendo que não tenho palavras, mas na verdade eu gostaria de ter dito à ela:

- Sra de Bushinjin, chame o barqueiro, faça descer as brumas que preciso voltar a terra dos homens.

Outras vezes voltei ao templo, para outros retiros, mas aquela primeira vez fora desse mundo, em outra dimensão, deixaram marca indelével!

Mas tudo isto revela uma grande simplicidade de espírito, porque podemos, sempre que assim o quisermos, encontrar retiro em nós mesmos. Em parte alguma se encontra lugar mais tranquilo, mais isento de arruídos, que na alma

Marco Aurélio

domingo, 11 de novembro de 2018

Vício


Quem assiste ou já assistiu novela sabe, que pode ficar uma semana  sem assistir nem um capítulo que na outra semana, em dois minutos é possível pegar  o fio da meada e o final da história será inevitavelmente o mesmo, assim é a vida, podemos pular várias partes sem que haja perigo de perdemos algo, ou prejudicar o final.

O diabo é que quem é viciado em novela, não consegue ficar sem assistir nem um minuto do capítulo diário, que dirá um capítulo inteiro e, assim também é a vida. Somos viciados. 

As coisas vão acontecendo, e nós, incapazes de pular um minuto sequer, vamos sofrendo como loucos, como se o nosso sofrimento pudesse mudar em alguma coisa o transcorrer ou final da história, e  depois de percorrido algum tempo, vemos que podíamos exatamente igual na novela termos pulado aquelas partes mais chatas que demoraram uma semana, quinze dias, um mês, e teríamos evitados um monte de rugas, cabelos brancos, baldes de lágrimas e um sofrimento intraduzível.

Não há nenhum acontecimento na vida, que possa ser pulado, temos que viver tudo, mas a frase de Drummond: A dor é inevitável, o sofrimento opcional, é perfeita e poderíamos nos lembrar dela como um remédio, uma terapia na hora dos acontecimentos. Viver o inevitável, mas pular a parte do sofrimento.   Colocar o sofrimento na gaveta e dizer: essa gaveta aqui só vou abrir daqui um mês, ou ano, dependendo do tipo de dor e continuar fingindo ignorância, fazer sozinho o que só se consegue com antidepressivos, jogar o sofrimento lá pra  frente, e durante a travessia do abismo ter em mente que o único objetivo é chegar do outro lado, olhando apenas pra frente, para não correr o risco de cair.

Passei um ano inteiro numa consumição, e hoje, alguns acontecimentos que quase me levam a uma atitude sem volta, se resolveram de maneira tão simples e favoráveis à mim, que quando me olho no espelho e vejo lá as marcas todas de noites e noites insones, sinto-me pequena e envergonhada.



E viver essa sabedoria, essa fase deliciosa em que preciso de tão pouco e que sei tanto!

O mundo está mudando, ou mudada estou eu?



Menopausa II



A menopausa se apresentou mim como uma madrasta das histórias infantis de outrora, e eu, a ela me submeti, exatamente como uma criança se submeteria, sem queixumes ou questionamentos, apenas peguei em sua mão e me deixei levar pelos seus escuros labirintos.

Começou com uma irritação leve, um descontentamento com tudo e com todos, que aos poucos foi se agravando. Um mal-estar indefinido que parecia se esconder no mais recôndito do meu ser, para aparecer em horas mais improváveis, gerando nas pessoas ao meu redor, estranheza, mal-estar e irritação.

Meu namorado, por estar mais perto de mim, foi quem mais sentiu as diferenças, mas, como era uma coisa sutil, que começou muito lentamente, aparecendo vez por outra, ele, assim como eu, foi também aos poucos incorporando as minhas grosserias e se acostumando com elas.

Nenhum de nós parou para pensar: caramba, isso não é normal, como pode de uma hora para outra uma pessoa se modificar e passar a ter um comportamento que nunca teve? 

Nosso relacionamento foi azedando aos poucos, pois aos poucos, ele começou a retribuir as patadas, até que conseguimos transformar uma relação maravilhosa em algo insustentável.

A distância foi ficando tão imensa, que o interminável assunto que tínhamos misteriosamente desapareceu e terminar aquilo foi a única possibilidade que me parecia decente. 

Sozinha pude ter a liberdade que queria de me deixar afundar naquela areia movediça, onde eu ficava semanas inteiras sem sair de casa, três e uma vez quatro dias, sem tomar banho. S
ó não afundei definitivamente porque o primeiro instinto do ser vivo é a sobrevivência.

Minha vida, se transformou num universo de dor, sofrimento, abandono, comiseração, ódio, rancor, e não sei dizer se esses sentimentos horríveis jaziam escondidos no mais recôndito do meu ser ou se nasceram a partir dessa situação horrível que vivenciei.

Mas as contas não se importam com doenças, seja lá de que tipo forem, então, passados dois meses, tive que abandonar o poço e procurar emprego e acabei conseguindo uma vaga de corretora numa construtora.

Essa empresa de escravos da era moderna, acostumada ao hábito de colocar o canudinho na jugular e beber direto, exatamente por isso acabou por ser minha salvação, pois era tudo que eu precisava para me afastar do poço, e foi o que aconteceu.

Trabalhei 14/16 horas por dia, direto e reto, de segunda a domingo, durante 6 meses ininterruptos, com apenas duas folgas e isso foi determinante para que eu me afastasse o suficiente do poço, para me esquecer do esquecimento que me impuseram, da dor que me atormentava, da morte que eu desejava.

Continuei deprimida, mas no meio de muita gente, muita festa, muitos jantares, cafés da manhã, shows, novos e lindos lugares, gente bonita, gente feia; gente legal, gente besta, enfim um mundo diferente de tudo o que eu havia visto e eu me enfiei de cara, e quando dei por mim, misteriosamente, estava na superfície, e de quebra, com algum dinheiro no bolso. 

Vitória!!

Não sabeis que só a disciplina da dor, da grande dor, é o que permitiu ao homem se elevar?

Nietzsche


sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Aparecida Maria "A Vidente"



Mãe e a filha tomam animadamente o café da tarde.

- Sabe quem eu vi ontem?

- Quem mãe?

- O Miguel, mas tava meio esquisito, passou direto, me deu a impressão que me viu, mas fingiu não ver sabe?

A filha faz um muxoxo e pergunta:

- Que Miguel é esse mãe?

- Ué, o filho da D.Generosa, quem mais!?

A filha, irritada, faz uma cara de quem está se contendo e anuncia:

- Que miguel Mãe, que Miguel, o Miguel está morto?!

A mãe segura a xícara no ar por uns minutos, o rosto todo um ponto de interrogação, sustém o ar, repousa a xícara no pires e inconformada pergunta:

- O que vc está me dizendo, o Miguel está morto?, como, quando foi isso, como não fiquei sabendo??

A filha já mais apaziguada responde:

- Deve fazer uns dois anos já, estava andando de bicicleta na marginal, um caminhão o pegou, morreu na hora.

Aparecida Maria levanta-se vagarosamente e começa a andar pela cozinha toda pensativa, como a casar pensamentos e de repente solta a pérola:

- Ahá, bem que eu vi que ele estava com jeitinho de morto! Agora eu entendi porque ele passou daquele jeito esquisito, como se não me conhecesse..., humm, ele está morto era isso então, agora sim, tá explicado!

A filha novamente irritada tenta se acalmar:

- Aonde a senhora o viu?

- Na Rua Maria Júlia, na calçada mesmo do Colégio Afonso Pena!

- Mãe, a senhora viu o Marcos, irmão gêmeo do Miguel, ele mora exatamente nessa rua, ao lado do colégio. A senhora se esqueceu do irmão?

- Você está louca? eu VI o Miguel, e disso, tenho certeza absoluta, não posso acreditar que você vai querer agora me convencer de que eu não vi o que vi!

 É boa essa, sessenta anos de espiritismo, e você acha que eu não consigo distinguir um morto de um vivo? Tenha dó!