Faltam cinco minutos para as oito da noite.
Quando cheguei, embora estivesse no horário, todos já haviam entrado, e
como não havia ninguém à volta, fiquei extremamente atrapalhada, com a minha
malinha na mão, sem saber o que fazer. Finalmente encontro um monge, digo que
não sei o que fazer, e ele calmo e sorridente me diz quase num sussurro: Imite!
As dependências do templo são enormes, após me perder por diversas vezes
pelos seus labirintos, encontro o lugar onde deixar minha mala, troco de roupa, e aceita a sugestão de imitar todos os outros.
Primeiro zazen, e a única coisa que consegui foi usar toda a
energia que me restava de uma semana de muito trabalho, para não dormir.
No outro dia, 5,30 da manhã, sino tocando, chamando para o zazen. Levanto
rápida, troco o pijama e tento me entregar a meditação, mas minha cabeça ainda na
loja, em casa, nos meninos, no meu amor.
Esforço-me loucamente para desligar e estar presente, em me envolver com
o objetivo do retiro, apenas estar ali, eu comigo mesma, mas é impossível, meu
ser voa para sentimentos outros, loja, casa, filhos, apartamento e as pradarias
desse amor insano que me faz estranha a mim mesma.
Aos poucos, porém, aquele ambiente silencioso vai me envolvendo e o
mundo dos homens, aos poucos, ganhando distância, a aquele ambiente, aquele
silêncio, o objetivo que me trouxe me envolvendo, minha respiração se fazendo
presente, as dores no corpo pelo inusitado da posição, as pessoas e coisas que
estão ao redor...
À tarde começa a chegar uma leva de japoneses, alegres, coloridos, cada
um com um prato. Não sei qual é o evento, mas me parece uma palestra. Um deles
toca um órgão e canta uma canção que parece vir de muito longe.
Encostado em dos lados do templo, tem um prédio de apartamentos, e em um
deles alguém está ouvindo Pearl Jam. Sentada na escadaria do templo, ouço encantada,
o som da algaravia dos japoneses e sua música distante e estranha, que se
confunde com Last Kiss.
Sorrio para mim mesma, saboreando a total diferença dos sons e sua
incrível coincidência.
Outro dia, outra leva de japoneses, desta vez tem crianças também,
acredito que deve ter em torno de cem pessoas. Chegam cheios de pratos,
salgados e doces, vão se sentando e falando pelos cotovelos, enchem as enormes
mesas do salão do templo.
15:00 horas, sentamos todos para a cerimonia do chá. O silencio é
absoluto no templo, só cortado de quando em vez por um carro que passa.
Uma paz enorme me envolve, um silencio dentro de mim que ainda não havia
acontecido desde que cheguei aqui, e que me proporciona um enorme bem
estar.
Que escolha maravilhosa a minha, ter me decidido por esse retiro, poder
descobrir que posso silenciar sem desesperar. Fiquei lá participando da
cerimônia em paz por estar em paz.
15:30 de novo na escadaria do templo, observo que chega mais gente para
a “festa”.
16:00 horas há uma cerimônia do templo e os japoneses começam a entrar
em absoluto silêncio.
O templo, com os seus amplos janelões abertos , a linda madeira do chão
absolutamente limpa e encerada, a arquitetura ímpar e o cheiro de incenso me
fazem flutuar leve, como se eu estivesse longe do meu corpo.
A monja começa a cerimônia e lentamente vou descendo a meu corpo,
tomando contato com o que estava acontecendo ali, e mesmo sem saber exatamente
o que era, as palavras dela foram aos poucos me picando como espinhos e e
precisei fazer um grande, um enorme, descomunal esforço para não soluçar.
Não conseguia atinar com o motivo, só sei que chorava e chorava e os
meus esforços para parar eram totalmente vãos.
Somente depois descubro, A cerimônia era para um rapaz que havia morrido
há um ano. Como minha dor se confundiu com a deles, não consegui atinar.
Volto para a escada, o som do apartamento ao lado agora é de Belchior,
Como Nossos Pais. Desaba um enorme temporal. Adentro para a enorme sala de
palestras do templo, cheio de mesas e cadeiras, que os japoneses ocupam
totalmente.
Escolho um cantinho e fico observando o temporal pelos vidros enormes e
ouvindo a algaravia ininteligível das pessoas.
Meu ser vazio, sem tristeza, sem alegria, sem pensamentos. Presto
atenção no barulho e penso que o barulho é uma só voz que atende pelo
nome de barulho. Quando fazemos parte do barulho, não podemos ouvir essa voz
porque afinal, somos ela, mas naquele momento que meu ser era silêncio, eu
podia ouvir claramente.
Que diacho de retiro é esse, com uma barulheira dessas?
Acho que é isso mesmo afinal, estar dentro de si mesmo, apesar do que
está acontecendo ao redor, mas que será que comemoram?
De repente localizo uma moça com uma criança que estava no templo aos
poucos vou localizando o restante das pessoas que lá estavam. Tem uma mocinha
muito jovem , quinze anos se tanto, toda atarefada indo e vindo, recolhendo
copos, lavando louças e fico conjeturando se seria possível uma cena dessas
numa festa ocidental.
Meus olhos a perscrutar tudo, acabam por achar um casal meio
envelhecido, e então compreendi, a comemoração era pelo aniversário de morte do
rapaz, e aqueles eram seus pais. Me deu uma vontade enorme de ir lá abraçá-los
e dizer que entendo.
Choro copiosamente, mas não sou notada, e as pessoas, aos poucos,
começam a deixar o recinto junto com a chuva e em poucos minutos a sala está
novamente vazia, exatamente do jeito que estava quando chegaram, nem uma
cadeira fora do lugar, nem um papel no chão, nem um talher na pia. Quanto a
aprender com esse povo!
22 horas, a monja me recebe numa sala com luzes de velas. Sinto-a
imponente, mas próxima.
Pergunto o que aquelas pessoas comemoravam - os anos de vida que
compartilharam com ele
O que tenho que aprender com a morte do meu filho? - impermanência!
Aquela noite dormi leve, sem sonhos.
Terceiro dia no templo, sinto-me em Avalon, a terra dos homens cada vez
mais longe, e eu cada vez mais leve.
Início da noite, o zazen começa a pegar pontos cada vez mais
dolorosos e profundos, daqui pra frente o meu trabalho fica cada vez mais
árduo, difícil e lento. As questões do cotidiano começaram lentamente a se
afastar e no domingo já não me pertenciam mais, estavam definitivamente do lado
de fora do templo. Não me movimentavam, estavam fora de mim, parecia que não
faziam mais parte do meu ser. Trabalhar as emoções assim fica muito mais fácil
e eu penso que maravilha deve ser se internar mesmo num monastério por um ano
por ex.
Novamente na escada ouvindo o rádio do apartamento ao lado, longe, como
longe tocavam os sinos da igreja ouvidos em Avalon. Madona canta Celebration, e
o inusitado daquele som naquele lugar me pareceu tão cool.
Quarta-feira, meio dia, meu amor me espera do lado de fora, despeço-me
da monja dizendo que não tenho palavras, mas na verdade eu gostaria de ter dito
à ela:
- Sra de Bushinjin, chame o barqueiro, faça descer as brumas que preciso
voltar a terra dos homens.
Outras vezes voltei ao templo, para outros retiros, mas aquela primeira
vez fora desse mundo, em outra dimensão, deixaram marca indelével!
Mas tudo isto revela uma grande simplicidade de espírito, porque podemos, sempre que assim o quisermos, encontrar retiro em nós mesmos. Em parte alguma se encontra lugar mais tranquilo, mais isento de arruídos, que na alma
Marco Aurélio