Quem
assiste ou já assistiu novela sabe, que pode ficar uma semana sem
assistir nem um capítulo que na outra semana, em dois minutos é possível
pegar o fio da meada e o final da história será inevitavelmente o
mesmo, assim é a vida, podemos pular várias partes sem que haja perigo de
perdemos algo, ou prejudicar o final.
O
diabo é que quem é viciado em novela, não consegue ficar sem assistir
nem um minuto do capítulo diário, que dirá um capítulo inteiro e, assim
também é a vida. Somos viciados.
As coisas vão acontecendo, e nós, incapazes de pular um minuto sequer, vamos sofrendo como loucos, como se o nosso sofrimento pudesse mudar em alguma coisa o transcorrer ou final da história, e depois de percorrido algum tempo, vemos que podíamos exatamente igual na novela termos pulado aquelas partes mais chatas que demoraram uma semana, quinze dias, um mês, e teríamos evitados um monte de rugas, cabelos brancos, baldes de lágrimas e um sofrimento intraduzível.
Não
há nenhum acontecimento na vida, que possa ser pulado, temos que viver tudo,
mas a frase de Drummond: A dor é inevitável, o sofrimento opcional, é perfeita
e poderíamos nos lembrar dela como um remédio, uma terapia na hora dos
acontecimentos. Viver o inevitável, mas pular a parte do
sofrimento. Colocar o sofrimento na gaveta e dizer: essa
gaveta aqui só vou abrir daqui um mês, ou ano, dependendo do tipo de dor e
continuar fingindo ignorância, fazer sozinho o que só se consegue com
antidepressivos, jogar o sofrimento lá pra frente, e durante a travessia do
abismo ter em mente que o único objetivo é chegar do outro lado, olhando apenas
pra frente, para não correr o risco de cair.
Passei
um ano inteiro numa consumição, e hoje, alguns acontecimentos que quase me
levam a uma atitude sem volta, se resolveram de maneira tão simples e
favoráveis à mim, que quando me olho no espelho e vejo lá as marcas todas de
noites e noites insones, sinto-me pequena e envergonhada.
E
viver essa sabedoria, essa fase deliciosa em que preciso de tão pouco e que sei
tanto!
O
mundo está mudando, ou mudada estou eu?