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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Brio

Quando meus filhos ainda eram pequenos, conheci uma dentista, que à época, tinha 72 anos.

Havia se casado aos 52 anos e o marido, que morreria 13 anos depois, deixou um patrimônio invejável, e três sobrinhos ávidos pela herança.

Era uma pessoa deliciosa, dona de um humor ácido e um raciocínio inacreditavelmente rápido, tinha um torpedo na boca pronto para disparar contra quem quer que dissesse algo que ela achasse inapropriado, e seus alvos preferidos eram os sobrinhos e suas respectivas.

Apesar da diferença de idade, acabamos desenvolvendo uma saudável amizade que durou até a sua morte, aos 86 anos. Conversávamos animadamente durante a consulta das crianças, e como ela quase não atendia mais, sempre tinha tempo para conversar após o término da consulta.

Morava numa mansão no Alto de Pinheiros, e vez por outra nos convidava para tomar um lanche no domingo à tarde, e assistir as formidáveis sapatadas que ela distribuía a torto e direito nos alvos preferidos.

Saia de lá sempre inconformada com aquilo. O que levava aquelas pessoas a saírem de suas casas num domingo à tarde para irem ver uma pessoa que os humilhava na minha frente, uma desconhecida pobre, que na maior cara de pau do mundo, estacionava uma Brasília no meio daqueles carrões?

Acabei por tachar, que aquela submissão se devia ao medo de que uma canetada os excluísse do testamento.

Muitos anos depois, pude me dar conta de que eu também tomava formidáveis sapatadas das pessoas que supostamente me amavam, e com o contrapeso de não ter herança alguma para receber depois.

 O diabo é que sou lenta, os anos foram passando por mim, deixando marcas, até que, aos poucos, fui acordando, identificando as pessoas, e muito devagar, fui me afastando, não porque decidi, mas porque depois de identificar a toxidade, meu interesse por elas foi diminuindo, até desaparecer completamente. 

Vejo então amigos e familiares suportando todo tipo de humilhação, infligido por mães, filhos, irmãos, maridos, amigos e e penso: a troco de que se submetem? 

E quando inconformada pergunto, a resposta é sempre a mesma: é família, é amigo! 

Temos então que ignorar as grosserias, a falta de respeito porque é minha mãe, filho, irmão, companheiro, amigo? Sério mesmo? Não deveria ser o contrário? Amor e respeito então, não são a mesma coisa?

A obrigação de amar uma pessoa a ponto de ignorar todas as mágoas que ela nos impõe, nos foi imposta por pessoas rançosas e ultrapassadas que estão mortas há séculos, e nós aceitamos sem discussão, submissos, por medo do julgamento, e principalmente da solidão.

A vida nos traz sofrimentos indizíveis, e não nos resta nada a não ser nos submetermos, porque então suportar relacionamentos que nos apequenam, humilham, se podemos escolher? 

Se temos que respeitar toda e qualquer pessoa que nos cruza o caminho, apenas e tão somente pelo fato de sermos semelhantes, que dirá familiares e amigos, e se essas pessoas não nos respeitam e continuamos lá, bicando as migalhas de um suposto amor, então estamos dizendo que é isso que merecemos.

Garçom, por favor, uma garrafa de brio!


Não ouse roubar a minha solidão, se não fores capaz de me fazer real companhia.
Nietzsche





quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A balbúrdia do silêncio



Tenho experimentado ficar em absoluto silêncio por horas para ver se consigo me livrar, nem que seja aos poucos, dessa necessidade mediática que tomou conta de cada um de nós, sem que nos apercebêssemos.

Esse último mês em especial, foi um mês extremamente difícil, cheio de questionamentos interiores, mas engrandecedor.

Ontem resolvi desligar tudo, celular, computador, não liguei a TV, e não me ocupei com absolutamente nada além da minha alimentação e higiene, o dia inteiro em retiro, eu comigo mesma, experienciando o silêncio exterior, e a balbúrdia interior que os acontecimentos anteriores provocaram em meu ser e no que eu acabei me transformando, na maneira como vejo tudo e todos, depois de tanto caminho trilhado.

O aprendizado é tão somente esse, viver a vida como ela é, saber, sentir, aceitar que ela não é menos por esse ou aquele problema, não é menos por não conter essa ou aquela pessoa, não é mais por ter isso ou aquilo, esses ou aqueles, etc...

Lembro-me de um ditado zen: enquanto vivo, viva, na hora de morrer morra!

Pois então, não viva morto, lamentando o que poderia ser e não é, morremos em cada lamento, pois enquanto lamentamos um momento ruim, um outro bom pode estar acontecendo concomitantemente, mas não o vemos, porque estamos perdidos no outro.

É tão somente tudo isso!


À vida então, aquela, que indiferente continua acontecendo, enquanto nos ocupamos de outras coisas. (parafraseando Lennon)