Quando meus filhos ainda eram pequenos, conheci uma dentista, que
à época, tinha 72 anos.
Havia se casado aos 52 anos e o marido, que morreria 13 anos
depois, deixou um patrimônio invejável, e três sobrinhos ávidos pela herança.
Era uma pessoa deliciosa, dona de um humor ácido e um
raciocínio inacreditavelmente rápido, tinha um torpedo na boca pronto para
disparar contra quem quer que dissesse algo que ela achasse inapropriado, e
seus alvos preferidos eram os sobrinhos e suas respectivas.
Apesar da diferença de idade, acabamos desenvolvendo uma saudável
amizade que durou até a sua morte, aos 86 anos. Conversávamos animadamente
durante a consulta das crianças, e como ela quase não atendia mais, sempre
tinha tempo para conversar após o término da consulta.
Morava numa mansão no Alto de Pinheiros, e vez por outra nos
convidava para tomar um lanche no domingo à tarde, e assistir as formidáveis
sapatadas que ela distribuía a torto e direito nos alvos preferidos.
Saia de lá sempre inconformada com aquilo. O que levava aquelas
pessoas a saírem de suas casas num domingo à tarde para irem ver uma pessoa que
os humilhava na minha frente, uma desconhecida pobre, que na maior cara de pau
do mundo, estacionava uma Brasília no meio daqueles carrões?
Acabei por tachar, que aquela submissão se devia ao medo de que
uma canetada os excluísse do testamento.
Muitos anos depois, pude me dar conta de que eu também tomava
formidáveis sapatadas das pessoas que supostamente me amavam, e com o contrapeso
de não ter herança alguma para receber depois.
O diabo é que sou lenta, os anos foram passando por mim, deixando marcas, até que, aos poucos, fui acordando, identificando as pessoas, e muito devagar, fui me
afastando, não porque decidi, mas porque depois de identificar a toxidade, meu
interesse por elas foi diminuindo, até desaparecer completamente.
Vejo então amigos e familiares suportando todo tipo de humilhação,
infligido por mães, filhos, irmãos, maridos, amigos e e penso: a troco de que se submetem?
E quando inconformada pergunto, a resposta é sempre a mesma: é
família, é amigo!
Temos então que ignorar as grosserias, a falta de respeito porque
é minha mãe, filho, irmão, companheiro, amigo? Sério mesmo? Não deveria ser o contrário? Amor e respeito então, não são a mesma coisa?
A obrigação de amar uma pessoa a ponto de ignorar todas as mágoas
que ela nos impõe, nos foi imposta por pessoas rançosas e ultrapassadas que
estão mortas há séculos, e nós aceitamos sem discussão, submissos, por medo do
julgamento, e principalmente da solidão.
A vida nos traz sofrimentos indizíveis, e não nos resta nada a não ser nos submetermos, porque então suportar relacionamentos que nos apequenam, humilham, se podemos escolher?
Se temos que respeitar toda e qualquer pessoa que nos cruza o caminho, apenas e tão somente pelo fato de sermos semelhantes, que dirá familiares e amigos, e se essas pessoas não nos respeitam e continuamos lá, bicando as migalhas de um suposto amor, então estamos dizendo que é isso que merecemos.
Garçom, por favor, uma garrafa de brio!
A vida nos traz sofrimentos indizíveis, e não nos resta nada a não ser nos submetermos, porque então suportar relacionamentos que nos apequenam, humilham, se podemos escolher?
Se temos que respeitar toda e qualquer pessoa que nos cruza o caminho, apenas e tão somente pelo fato de sermos semelhantes, que dirá familiares e amigos, e se essas pessoas não nos respeitam e continuamos lá, bicando as migalhas de um suposto amor, então estamos dizendo que é isso que merecemos.
Garçom, por favor, uma garrafa de brio!
Não ouse roubar a minha solidão, se não fores capaz de me fazer
real companhia.
Nietzsche