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quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Esteja Presente!

O que faz os seres humanos envelhecerem?
O envelhecimento psicológico começa na infância.
Ficar velho, equivale a desenvolver uma diminuição gradual de reação à estimulação persistente, ou seja, ficar habituado.

Ficar habituado: tornar-se desatento a um estímulo repetitivo. Ex.: O tique taque de um relógio. O som de pés se arrastando no apartamento de cima.
No início, esses sons nos perseguem durante o dia e nos mantêm acordados à noite, depois um filtro passa a funcionar nos nossos cérebros e, com o tempo, começa a bloquear os sons. Um dia despertamos e percebemos que nos tornamos tão acostumados a esses ruídos, que não sabemos mais se eles existem ainda.

ALDOUS HUXLEY, deu a isso o nome de válvula de redução. Sem essa válvula enlouqueceríamos, distraídos com as milhares de impressões irrelevantes que atingem nossos sentidos a cada momento.
Ficar habituado contudo, é uma redução da nossa consciência, bem como dos nossos sentidos.
Com o tempo os prazeres simples e as pequenas alegrias, perdem a qualidade por força da simples repetição.

Esse processo se inicia na infância. Em princípio tudo que nos rodeia é brilhantemente vivo e animado – o gorjeio do pardal, o gosto do sorvete, a visão das nuvens de verão. Então os anos se passam. Quando escutamos o gorjear de milhares de pardais, quando lambemos a nossa décima milésima casquinha de sorvete, quando vemos a nossa milionésima nuvem passar sobre a nossa cabeça, a imediação da nossa reação a esses estímulos diminui até ficarmos insensíveis à sua beleza.
O ficar habituado se estabelece e, com ele, uma sensação de nos tornarmos rígidos, endurecidos – mais velhos.

Quando viajamos, nos sentimos mais vivos, por nos encontrarmos em circunstâncias incomuns, longe do hábito. Cores, sons, gostos, odores, ideias, tudo parece mais vívido quando estamos na estrada ou em novos ambientes, até o próprio tempo parece diminuir o ritmo (o que nos faz pensar se o nosso sentido de tempo também não está condicionado à velocidade na qual processamos as impressões).

Isso explica por que gastamos tanto tempo de nossas vidas buscando experiências novas – um novo filme, um novo restaurante, um novo amante. inconscientemente achamos que a troca nos livrará do hábito, mas o novo de hoje, virará hábito amanhã e, assim por diante.
Em seu sentido mais profundo, ficar habituado é mais do que simplesmente uma entrega crônica às rotinas.
Em um nível mais profundo, pode ser considerado o oposto polar da consciência e da atenção, que são os pilares da vida espiritual.

Ficar habituado, é o que poderíamos chamar de “inconsciência” ou “desatenção”.
Se consciência significa vivermos no aqui e estarmos visceralmente atentos ao que fazemos a cada momento, ficar habituado significa vivermos fora do momento, estarmos desatentos a nós mesmos e não observarmos o que fazemos. permitirmos que as nossas mentes desperdicem o tempo pensando os seus pensamentos costumeiros e sonhando os seus sonhos costumeiros – eu quero, eu não quero, eu gosto, eu detesto, eu lembro, eu esqueço...

ROBERT ORNSTEIN E CLAUDIO NARANJO, afirmam que nossa suposta visão da realidade é, na verdade, uma construção mental subjetiva e tendenciosa na qual selecionamos um pequenino grupo de ideias e estímulos e eliminamos sistematicamente o resto.

O homem e a mulher comuns acreditam que aquilo que veem ao seu redor quando descem a rua é um reflexo exato do que realmente existe. Essa ideia é impossível de ser mantida, mesmo no nível mais elementar, se considerarmos as inumeráveis formas de energia que nos cercam a todo momento – eletricidade, magnetismo, radiação, ondas luminosas, sinais de rádio, raios X, para não mencionar as nossas próprias químicas interior e descargas elétricas, os nossos pensamentos, sentimentos, sensações, impulsos musculares.

Já que somos bombardeados por essa ampla saraivada vibratória em todos os momentos de nossas vidas, uma grande quantidade de energia deve ser gasta para que tudo isso faça sentido. Fazemos isso, em primeiro lugar, nos descartando e simplificando a maioria das informações que chegam aos nossos cérebros e, em segundo, separando e classificando esses dados em concisos pacotes de consciência e reação: como se fossem bytes de consciência.

O resultado desse esforço mental de organização é que o nosso universo se torna reduzido ao nível da nossa própria capacidade de compreendê-lo e processá-lo.
Literalmente, “sintonizamos” a nossa consciência nos canais que são mais fáceis de conectar e bloqueamos o resto. “Quando nos tornamos experientes em lidar com o mundo, tentamos cada vez mais fazer com que outras coisas da massa de informações que chegam ao nossos receptores tenham um sentido consistente. Desenvolvemos sistemas ou categorias estereotipados para classificarmos os estímulos que nos alcançam. Esse conjunto de categorias que desenvolvemos é limitado, muito mais limitado do que a riqueza dos estímulos.

Esperamos que os carros façam um determinado ruído, que os sinais de trânsito sejam de uma determinada cor, que o odor da comida seja de determinada maneira e determinadas pessoas digam determinadas coisas.
Como resultado desse processo estereotipado, o que nós realmente percebemos não são absolutamente carros ou sinais de trânsito ou comidas reais, são invenções dos nossos limitados sistemas internos de processamento que veem o que o hábito nos diz para vermos e que são filtrados através das lentes das nossas próprias subjetividade, imaginação e sugestionabilidade.

Sendo assim, em última análise, todo o nosso senso de realidade vem a ser construído não sobre a s coisas como realmente são, mas sobre modelos interpretativos baseados em uma versão excessivamente editada e intensamente processada das experiências passadas e do futuro.
Então, ficar habituado é o subproduto de todas as rotinas e escaninhos aos quais as nossas mentes se entregam durante décadas.

Perto da meia-idade, esse mecanismo se torna predominante em nós, censurando, classificando, distorcendo, julgando, supondo, rotinizando, mecanizando tudo o que vemos, sentimos e pensamos.
O ficar habituado se estabelece, por ex, quando não escutamos mais o que as pessoas estão nos dizendo (porque as nossas noções preconcebidas nos dizem que já sabemos a verdade). Isso acontece quando ficamos entorpecidos diante das belezas sutis que nos cercam, quando paramos de ver as coisas pela primeira vez, como se fosse pela primeira vez, como uma criança é capaz de fazer.

Ficar habituado é quando nos ouvimos expressar as mesmas desgastadas opiniões, quando nos pegamos contando uma história que já contamos centenas de vezes antes, exatamente da mesma maneira. Ficar habituado é falarmos automaticamente de coisas sobre as quais nada sabemos. É supor sem entender, julgar sem avaliar, reagir a partir de uma tendência em vez de um fato evidente. Resumindo, é uma redução da nossa percepção ao invés de uma expansão da nossa consciência.
Como escapamos dessa armadilha? Como superamos o emaranhado de hábitos que nos mantêm tão acorrentados e cegos?

Excerto do livro: Os Cinco Estágios da Alma