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quarta-feira, 9 de junho de 2021

Escalando Montanhas

Final de ano, a mesma papagaiada de sempre, e eu anos após anos fazendo a mesmíssima pergunta: porque as pessoas precisam disso?

Enfim, c’est la vie!

Estou aqui em minha casa, sozinha, por opção, escalando uma montanha que parece não ter fim, essa montanha do aprendizado.

Quando penso em tudo que já passei, sinto um conforto, por achar que já passei há tempos da metade, tanto em quantidade de tempo, quanto em sofrimento.

Caminho celeremente para os 63 e gostaria imenso de achar uma graça, alguma, qualquer uma, em qualquer coisa que fosse. Isso não quer dizer que estou infeliz, não, nem de longe, muito menos que esteja feliz, não, nem de longe, estou assim, talvez a palavra que melhor defina seria: apaziguada.

Aos 55 anos, prestei o ENEM, passei e entrei na faculdade, bravos!! Mas os anos da faculdade, muito ao contrário do que todos pensam, e inclusive eu mesma pensava, foram um martírio. Festival de desiguais, em idade, nível social, cultural, econômico, compreensão do mundo, da vida, de tudo. Pessoas procurando alguém para se encostar, e poder levar o diploma sem grandes preocupações. 

O último ano dispensa qualquer comentário, a facú, o estágio e o TCC tudo isso mais o trabalho, foi enlouquecedor, mas enfim passou, como todo o resto e me vi com um diploma, finalmente um diploma para chamar de meu. Naquela idade havia conseguido e no dia que comentei com a minha irmã que já estava de posse do tão sonhado e almejado diploma, que agora era só conseguir uma colocação à altura da minha formação, ela sugere: porque vc não faz um curso de cuidador de idoso?

A sugestão é assunto para outro dia, tamanho desapontamento me causou no momento, e que deu causa ao nascimento, não sem tempo, da compreensão que aquele relacionamento não me interessava em absoluto.

Voltando à vaca fria, eu tinha um diploma, e fui à luta. Fiz tudo que era concurso que aparecia, e fiquei razoavelmente bem colocada em todos, mas nunca fui chamada. Com o tempo percebi que o diploma só servia mesmo para insuflar a minha vaidade, porque para um emprego, o que contava mesmo era a minha idade, 59 anos. As propagandas que vemos constantemente na televisão, dando conta de que pessoas da “melhor idade”, denominação ridícula que obviamente foi criada por algum imbecil, hoje têm facilidade para arrumar emprego, não é verdadeira, exceção feita, acredito, para empregos informais em pizzarias, supermercados, bares, etc...

Era inacreditável, mas o impensável havia acontecido, eu tinha envelhecido, estava na terceira idade, era uma idosa, da noite para o dia, incrível. Pode parecer engraçado para quem tem 30 anos, mas quem já chegou aos 60 sabe muito bem do que eu estou falando. Nada mudou, vc continua sendo quem vc sempre foi, mas do nada, é idoso, do nada está na terceira idade, do nada virou café com leite.

Existe cursos hoje para tudo, a medicina, acredito, deve ser a mais avançada nesse quesito. Tem especialidade até para mãos! Perdoem a ignorância, mas somente agora soube disso, não podia imaginar uma coisa dessas, mas enfim. Mas não tem um especialista para te preparar para essa merda. É como se vc estivesse por ex., caminhando dentro da sua casa, e de repente, do nada, aparecesse uma parede e vc não conseguisse mais acessar os outros cômodos. Como assim? De onde apareceu essa parede? Ninguém te explica porque a parede está ali, e ninguém vem em seu socorro para derrubar a parede, e essa maldita nunca mais desaparecerá, pode esquecer, esse caminho está fechado, ponto final! E fica pior, de tempos em tempos, já saquei, novas paredes aparecerão, e goste ou não terá que se acostumar com mais um caminho interrompido que vc nunca mais acessará. 

E eu venho de inventar essa conversinha, justamente agora, que está na moda ser feliz, publicar o tanto de felicidade que vc tem por ter comprado um carro, por ter ido viajar, por ter casado, se separado, mudado de emprego, estar desempregado, o raio que o parta. Tudo hoje é motivo para vc postar e mostrar que está feliz, não importa o quão infeliz vc esteja. Estou na contramão, porque o que se exige de mim, de nós todos, é que comemoremos tudo, nos maravilhemos com tudo, mostremos o quão felizes podemos ser no desemprego, no descasamento, na menopausa, na terceira idade, ou pior, na “melhor idade”. Temos que nos comportar como estivéssemos esbanjando felicidade na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na juventude e na velhice, na vida e na morte.

Pois para a pqp essa palhaçada! A menopausa foi um desastre de grandes proporções na minha vida, um porre, para mim, e para todos que estavam à minha volta. Sofri os diabos, penei com as malditas ondas de calor, com a irritação constante e uma depressão que fulminou todo o meu ser durante um longo e penoso ano, até que eu descobrisse o que era, como era e como tratar.

E de repente, aqui estou eu, 8 anos pós menopausa, plenamente adaptada.

Meu desafio hoje, “é ser feliz” com essa vida que em parte me foi imposta, e em parte é minha escolha.

Envelhecer é cansar-se de si mesmo.

Mário Silva Brito