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quinta-feira, 18 de março de 2021

O Último Personagem

Acabo de completar 60 anos. Chego à conclusão que assim como todo mundo, passei minha vida interpretando. É papel de filha, mãe, irmã, tia, prima, esposa, amiga, subordinado, empregador e por aí afora. Nunca recusei papéis, e embora nem sempre representei com a magnificência desejada, tenho certeza de ter dato o melhor de mim em todos eles, mas nesse momento, estou às voltas com um papel, que recusaria de bom grado, se possível fosse.

Envelhecer deve ser de longe, o pior papel que temos que representar, e o pior, não há como recusar, vai representar e ponto final. Talvez pela obrigatoriedade do papel, muitas das pessoas esbravejam, esperneiam, ficam doentes, fazem botox, usam roupas de jovens, gírias, frequentam lugares cool, atitudes todas que demonstram o quão indignadas estão com papel que lhes foi imposto, afinal, precisamos manter a ilusão que continuamos a representar o papel de jovens.

Olhamos no espelho todos os dias várias vezes, mas não nos vemos realmente. Damos uma olhada rápida no cabelo que acabamos de pentear, limpamos a maquiagem do olho que borrou um pouco, mas não olhamos em profundidade.

Mas aí encontrei uma amiga que não via há muito tempo, e me peguei surpresa ao ver como ela tinha envelhecido, e ato contínuo fiquei imaginando que a impressão dela foi a mesma. Cheguei em casa curiosa e aí sim, fui fazer uma investigação completa olhando de fato cada detalhe do meu rosto. Precisei me segurar para não cortar os pulsos.

Milhares de cursos no Youtube , mas cadê aquele que te prepare para isso? Levar a vida daqui pra frente, onde sei que tudo só vai piorar, já é um enorme desafio, que dizer então levar com classe, representar o papel  e encerrar com dignidade o ciclo da vida e podermos dizer que embora o papel nos tenha sido imposto, não escolhido, conseguimos cumpri-lo integralmente.

Baita desafio!

Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem?

 Confúcio