Acabo de completar 60 anos. Chego à conclusão que assim como todo mundo, passei minha vida interpretando. É papel de filha, mãe, irmã, tia, prima, esposa, amiga, subordinado, empregador e por aí afora. Nunca recusei papéis, e embora nem sempre representei com a magnificência desejada, tenho certeza de ter dato o melhor de mim em todos eles, mas nesse momento, estou às voltas com um papel, que recusaria de bom grado, se possível fosse.
Envelhecer deve ser de longe, o pior papel
que temos que representar, e o pior, não há como recusar, vai representar e
ponto final. Talvez pela obrigatoriedade do papel, muitas das pessoas
esbravejam, esperneiam, ficam doentes, fazem botox, usam roupas de jovens,
gírias, frequentam lugares cool,
atitudes todas que demonstram o quão indignadas estão com papel que lhes foi
imposto, afinal, precisamos manter a ilusão que continuamos a representar o
papel de jovens.
Olhamos no espelho todos os dias várias
vezes, mas não nos vemos realmente. Damos uma olhada rápida no cabelo que
acabamos de pentear, limpamos a maquiagem do olho que borrou um pouco, mas não
olhamos em profundidade.
Mas aí encontrei uma amiga que não via há
muito tempo, e me peguei surpresa ao ver como ela tinha envelhecido, e ato
contínuo fiquei imaginando que a impressão dela foi a mesma. Cheguei em casa
curiosa e aí sim, fui fazer uma investigação completa olhando de fato cada
detalhe do meu rosto. Precisei me segurar para não cortar os pulsos.
Milhares de cursos no Youtube , mas cadê aquele que te
prepare para isso? Levar a vida daqui pra frente, onde sei que tudo só vai
piorar, já é um enorme desafio, que dizer então levar com classe, representar o
papel e encerrar com dignidade o ciclo
da vida e podermos dizer que embora o papel nos tenha sido imposto, não escolhido,
conseguimos cumpri-lo integralmente.
Baita desafio!
Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem?