E se de repente tudo cessasse?
Não pela morte, mas em vida.
Você parasse de pensar sem parar?
Parasse de reclamar e apenas sentisse?
O que seria?
Se de repente tudo se aquietasse e você pudesse ouvir o que nunca
ouve, o que ouviria?
A gente se esquece de ouvir. Fala tanto!, reclama e reclama.
Da vida, dos santos, da televisão, da mídia, dos políticos, da
justiça, dos filhos, dos pais, dos maridos, das esposas, dos amigos, dos
chefes, dos empregados... sempre falando, sempre pensando, sempre reclamando.
E se de repente
tudo cessasse?
Não pela morte, mas em vida?
Parasse de reclamar e apenas sentisse, o que seria?
Talvez sorrisse de tanta burrice e soltasse um ai!
Quem sabe?
Que tal tentar, só por um
momento ficar atento ao que é neste instante e que não se repetirá jamais?
Abrir bem os olhos não é arregalar. É olhar bem profundo, lá
mesmo no fundo, aonde ninguém quer chegar. É ver o escondido segredo mantido
que a gente pretende não Ter em nenhum lugar. De olhos abertos. Ouvidos
despertos. Sentidos alertas. Pode-se até sonhar.
Sonhar o sonho de dentro de um sonho. E pode ser um sonho de
acordar.
A gente sonha cada bobagem...
Ondas enormes, perigos, enchentes, guerras e mortes e, foge,
foge, foge...Quer gritar e não pode. Ou sonha com flores e gramados brilhantes
de orvalho ao nascente. Sonha no Sábado e também no domingo. Às vezes, até se
esquece de sonhar e acorda pensando o que foi e esqueceu... O sonho talvez de
acordar.
Mas, antes de tudo, antes de se levantar, percebe o ar, os sons
ao redor, a textura da fibra de que é feito o lençol. Percebe o dedão lá do pé
querendo furar a meia que você teve ontem, preguiça de tirar. Espreguiça
comprido cuidando para a câimbra não despertar. Levanta-se de esguelha, sem nó
lá no peito, sem lembrança de nada. Levanta-se e respira bem fundo e suspira
que hoje é dia de
VOCÊ ACORDAR.