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domingo, 28 de fevereiro de 2021

CATARSE

 

Meu filho, eu o perdoo!

Perdoo por tudo que você me fez, e o perdoo também por tudo o que você poderia ter feito por mim, e não fez!

Meu filho, me perdoe!

Me perdoe por tudo que eu te fiz, que eu sei que errei muito também!

Penso que fiz tudo o que eu podia por você, mas se houve algo que eu poderia ter feito e não fiz, me perdoe também!

Meu Deus, perdoe o meu filho, como eu o perdoei!

Meu Deus, esse meu filho me fez sofrer muito, e todos que estão aqui são testemunhas e eu o perdoei, de todo coração, eu o perdoei, por caridade eu lhe peço, perdoe-o também! Penso que esse meu filho, não magoou ninguém no mundo como me magoou e eu o perdoei, por caridade eu imploro, perdoe-o também!

Meu Deus, meu pai, eu lhe peço não o deixe sofrer!

Meu Deus, meu pai, eu imploro, feche os seus olhos, dê-lhe o benefício do sono profundo, para que ele não veja as cenas que o esperam nesse difícil trajeto final.

Ah meu Deus, eu errei muito, mas também ajudei muito, fiz o bem para muitas pessoas, se não for por ele que seja por mim, eu o perdoei, eu imploro, perdoe-o também!

Não o deixe sofrer durante a travessia, esteja com ele, não o abandone eu lhe peço, por caridade, não o abandone nessa hora tão triste!

Meu Deus, acompanhe o meu filho, não o abandone nessa hora, eu imploro!

Meu filho, vá com Deus!!

Aquela mulher, tão pequena, tão sofrida e tão forte, cresceu diante da pequena multidão de pessoas que lotava o humilde velório do cemitério de Itaquera.

As palavras simples, a maravilhosa declaração de amor, tiradas do mais recôndito do seu ser, inundou o filho no caixão, e inundou a todos, obrigando a cada um dos que ali estavam a uma análise profunda de suas vidas, seus amores, rancores, esperanças...

Tudo o que ela falou naquele momento era para ela mesma, ela intuía que precisava daquilo para suportar, e não se importou com absolutamente nada do que poderia acontecer depois, apenas fez a despedida, com a força costumeira com que carrega os seus 88 anos de uma vida sofrida, mas que ela fez questão de viver intensamente, sem pular parte alguma, mesmo naquele momento.

A profunda catarse, acabou por me jogar a léguas distâncias do meu próprio eu.

Quantos anos de busca debruçada em cima de livros e mais livros, filosofias, essas e aquelas outras, na tentativa louca de entender o óbvio!

Quanta terapia, psicologia, psiquiatria, filosofia, e aquela mulher ali, quase analfabeta, resolvia diante do olhar perplexo daquela multidão com a maior e mais bela simplicidade a morte de um filho.

Devolveu ao universo o que não era dela, sem lástimas, sem lamúrias, com a mais bela declaração de amor jamais ouvida por qualquer um dos presentes.

Comportou-se diante da morte, como sempre se comportou diante da vida, bravamente, sem lástimas!