Meu filho, eu o perdoo!
Perdoo por tudo que você me fez, e o perdoo também por tudo
o que você poderia ter feito por mim, e não fez!
Meu filho, me perdoe!
Me perdoe por tudo que eu te fiz, que eu sei que errei
muito também!
Penso que fiz tudo o que eu podia por você, mas se houve
algo que eu poderia ter feito e não fiz, me perdoe também!
Meu Deus, perdoe o meu filho, como eu o perdoei!
Meu Deus, esse meu filho me fez sofrer muito, e todos que
estão aqui são testemunhas e eu o perdoei, de todo coração, eu o perdoei, por
caridade eu lhe peço, perdoe-o também! Penso que esse meu filho, não magoou
ninguém no mundo como me magoou e eu o perdoei, por caridade eu imploro,
perdoe-o também!
Meu Deus, meu pai, eu lhe peço não o deixe sofrer!
Meu Deus, meu pai, eu imploro, feche os seus olhos, dê-lhe
o benefício do sono profundo, para que ele não veja as cenas que o esperam
nesse difícil trajeto final.
Ah meu Deus, eu errei muito, mas também ajudei muito, fiz o
bem para muitas pessoas, se não for por ele que seja por mim, eu o perdoei, eu
imploro, perdoe-o também!
Não o deixe sofrer durante a travessia, esteja com ele, não
o abandone eu lhe peço, por caridade, não o abandone nessa hora tão triste!
Meu Deus, acompanhe o meu filho, não o abandone nessa hora,
eu imploro!
Meu filho, vá com Deus!!
Aquela mulher, tão pequena, tão sofrida e tão forte,
cresceu diante da pequena multidão de pessoas que lotava o humilde velório do
cemitério de Itaquera.
As palavras simples, a maravilhosa declaração de amor,
tiradas do mais recôndito do seu ser, inundou o filho no caixão, e inundou a
todos, obrigando a cada um dos que ali estavam a uma análise profunda de suas
vidas, seus amores, rancores, esperanças...
Tudo o que ela falou naquele momento era para ela mesma,
ela intuía que precisava daquilo para suportar, e não se importou com
absolutamente nada do que poderia acontecer depois, apenas fez a despedida, com
a força costumeira com que carrega os seus 88 anos de uma vida sofrida, mas que
ela fez questão de viver intensamente, sem pular parte alguma, mesmo naquele
momento.
A profunda catarse, acabou por me jogar a léguas distâncias
do meu próprio eu.
Quantos anos de busca debruçada em cima de livros e mais
livros, filosofias, essas e aquelas outras, na tentativa louca de entender o
óbvio!
Quanta terapia, psicologia, psiquiatria, filosofia, e
aquela mulher ali, quase analfabeta, resolvia diante do olhar perplexo daquela
multidão com a maior e mais bela simplicidade a morte de um filho.
Devolveu ao universo o que não era dela, sem lástimas, sem
lamúrias, com a mais bela declaração de amor jamais ouvida por qualquer um dos
presentes.
Comportou-se diante da morte, como sempre se comportou
diante da vida, bravamente, sem lástimas!