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domingo, 28 de fevereiro de 2021

O RATO DE ALICE

 

Praças de alimentação costumam atrair ratos e baratas, que por sua vez atraem dedetizadores, que atraem produtos químicos, que atraem um cheiro horrível, que atraem a morte, que atraem mais cheiros horríveis.

Dia desses, tinha lá na loja um cheiro insuportável de produto químico que entrava pelas narinas e revirava o estômago. Investigações superficiais não apontavam nada. Chamei um homem (eles costumam servir bem para essas coisas). De fato o homem fez um exame minucioso no estoque e achou um rato morto, intoxicado de produto químico no meio das caixas. Felizmente não vi o rato, mas o cheiro me perseguiu por vários dias e ainda hoje quando me lembro ainda posso senti-lo.

Mas hoje procurando por documentos no estoque, um cômodo atulhado de coisas que não se usam para nada. Aquelas coisas que se tem dó de jogar fora antes de as guardarmos por uns quatro ou cinco anos, para então se ter certeza que de fato não servirão para nada, começo a sentir aquele conhecido cheiro novamente, bem mais fraco, mais ainda o cheiro. Passei a procurar e subi na escada até o teto falso, tirei algumas caixas e dei com o rato pendurado pelo rabo, morto, um cadáver de rato morto há muito tempo, tanto tempo que o cheiro quase não se fazia sentir.

Fiquei ali no topo da escada, hipnotizada pela visão, sem sentir medo ou nojo. A visão do rato paralisara meu corpo e minha mente, e apenas me deixei ficar ali, com o rato morto à minha frente, o rato e sua morte, ambas coisas que me apavoram, ratos e mortes, ambas as coisas que não faço ideia do que fazer, quando à minha frente, ambas as coisas que me desesperam e me distanciam léguas do meu centro.

Desci devagar da escada e dei por finalizada minha procura, minha procura por documentos. Havia achado afinal um documento, um documento que me dava a certeza que o mundo não é bonito, um documento todo assinado de que a morte é repugnante, e que seu mistério me fere, sobrepuja, massacra...

Lispector me voltava à cabeça em cada sílaba do seu texto, e eu pensava que ela e seu rato ruivo enorme, tão diferente daquele, mas tão iguais em sua morte e na sensação que nos causava, tivera um alento que eu não tenho, uma crença em algo que lhe dava, ainda que às avessas, um sentido, um culpado, alguém que era emergência perdoar para suportar, e o perdão, de alguma maneira lhe dava a desculpa para continuar e poder esquecer o rato.

O rato esquecido ali no estoque, o rato e toda aquela morte, o rato e toda aquela deformidade e toda aquela feiura e toda aquela finitude, me partira ao meio e me jogara para longe da graça que costumo achar nas coisas que faço durante o dia, para conseguir fazê-las.

O rato e aquela sua morte me surpreendera até a perplexidade, e me fizera ir além da sua feiura para adentrar a minha própria, aqueles meus úmidos labirintos, por onde a visão de uma morte me obriga a escorregar, e ver os que amo, e eu própria, dias passados, presentes ou futuros, não importa porque esta feiura é tão parte como todo o resto, e porque finais, só tolero na superfície, embora seja pra isso que caminho.

Meus labirintos de morte, hermeticamente fechados, me jogam por terra quando inadvertidamente abertos, me perco por dias.

 

Se é certo que um Deus fez esse mundo não queria ser esse Deus: as dores do mundo dilacerariam meu coração...

Nietzche