Já há algum tempo desisti da segurança de me sentir bem para me sentir
viva.
Desisti do papel de boa moça para com as pessoas, para assumir o papel
de boa moça comigo.
De ser desagradável comigo, para agradar aos outros.
De me conformar com o pouco, para não escandalizar os outros.
De trair os meus sentimentos, para não magoar os dos outros.
De trair o que eu penso, sinto, para não trair o que outros pensam,
sentem...
Penso que não sou a primeira e que com certeza, não serei a última, mas
é um trabalho tão árduo, duro, pesado e tão diferente do usual, tão inusitado
para a mente pequena e comum dos que estão à sua volta, que às vezes bate as
neuras. Será que estou mesmo certa? Será que vou conseguir chegar até o final
disso? Quantas pessoas eu perderei, sentimentalmente falando, para chegar até o
final disso? E no final depois de todas as perdas, será que vou achar que terá
valido a pena?
Essas perguntas me devoram, mas quando olho pra trás e vejo o quanto já
conquistei, paro de tremer e retomo o controle, equilibro-me de novo e
continuo, e continuarei sempre, porque sei que esse é o caminho, e que uma vez
tomado, não há volta possível.