Saio de casa e dou de cara com um dia tão maravilhoso, que quase parecia
um insulto às minhas pequenas mazelas. Respiro o ar puro e coloco os óculos
escuros para que meus olhos possam suportar a claridade magnífica do sol. Fico
pensando que nada pode nublar um dia ímpar como este.
Abro os ouvidos para os sons, quero aproveitar tudo. Os Bem-te-Vis fazem
uma algazarra e eu paro maravilhada para ouvi-los.
Desço a calçada da minha rua com o corpo leve e uma sensação boa de
simplesmente estar vivo. "Oh!! coisa maravilhosa, simplesmente andar sobre
a terra!"
De repente, viro a esquina e meus olhos imediatamente acham um cachorro
de rua que eu não via há alguns dias. Este cachorro me incomoda imenso! Ele tem
uma expressão humana de perdedor. Uma expressão de abatimento, cansaço de estar
vivo, desesperança, desistência...
Mas naquele dia, exatamente naquele dia, em que eu me sentia tão bem,
aquele cachorro, que além da expressão, agora estava com sarna, aquele
cachorro, naquela estupenda manhã, aquele cachorro me fez sentir estúpida!
Passei rápido por ele, porque tinha medo da contaminação, ah não eu não
deixaria que um cachorro, que esse cachorro e sua expressão de desistência me
fizessem perceber o estupor da vida e desistir dela também...
Aquele cachorro, que eu ia deixando para trás em rápidas passadas,
continuava dentro de mim, tão presente como estava há alguns segundos atrás
diante dos meus estarrecidos olhos. Aquele cachorro a me perseguir, me dava
conta da minha imensa, insuportável covardia.
Por que eu não dava meia volta até a farmácia, comprava um remédio qualquer,
perdia duas horas do meu "precioso" tempo e voltava até ele para
amenizar um pouco daquele sofrimento? Ah! aquele sofrimento., dele ou meu? Meu
e dele? Só meu!
Por que não me voltava para mim mesma e me curava daquilo que me fazia
tão mal, que me doía tanto?
Porque aquele cachorro e seu jeito humano tão desesperançado me davam
conta de tantos sentimentos horríveis naquela manhã radiosa com trilha sonora
dos Bem-Te-Vis.
Mas eu avancei rápido, pensava num monte de ações, mas a única que eu
levava adiante era a de chegar no ponto do ônibus e ir embora rápido daquela
cena, fugir dela, pensar rápido em um monte de coisas fúteis para fugir de mim
mesma e da cobrança daquela sarna que me dilacerava a carne. E aquela
expressão... ah! aquela expressão me torturando até as entranhas a me dar conta
que a dor da vida sobrepujava qualquer raio de sol ou canto de Bem-Te-Vis.
Outros dias ainda, muitos deles eu encontrei com o meu inimigo sarnento,
indiferente à vida, e a inimizade que havia conquistado. Outros tantos dias
ainda, passei incólume, rápida, violentando meu ser, por não dar vazão à
necessidade imperiosa de ação, que me libertaria da covardia e da contaminação
e da dor.
Nada fiz até que o cachorro desapareceu por fim, deixando-me com uma
sensação de derrota tão profunda que há tempos não ouço mais os Bem-Te-Vis.