Houve um
tempo em que vivi intensamente a vida.
Vivi deste
lado os amores, rancores, emoções, ganâncias, dores de quem está vivo, com
todos vivos à sua volta.
Quando você
partiu também parti eu para dentro da sua sepultura.
Passei
então a viver intensamente a difícil e insuspeita “vida” dos mortos.
Uma
morte/vida de interrogações, angústia, incertezas e a mais profunda dor.
E aos poucos, aquele gélido frio do gramado da sua sepultura, das árvores, das flores do cemitério em
todo o meu ser até os ossos, foi se infiltrando.
Sentia todas as imaginárias dores, a desesperança, a descrença do seu possível suplício, o desespero de quem está indo vendo os que estão ficando. Vivia a certeza do sofrimento de ter ficado e, de quebra o imaginário de como você se sentia por ter ido.
Passei
então a viver dupla vida, e a minha, tão ou mais fúnebre do que a sua.
Em casa, no
seu quarto, seu armário guardando suas roupas, revistas, livros toda sua
história.
Suas
poesias com tinta ainda fresca repousando indiferentes nas gavetas da
escrivaninha.
Sua cama
desfeita ainda conservando o calor, o cheiro do seu corpo. Seu tênis embaixo da
prancheta
a denunciar
sua presença ainda no ar, suspensa, a nos encher de dor, espanto.
Minha família, como espectros, pela casa caminhando.
Arrastava minha incompetência, minha perplexidade, e todo o imenso ódio que me consumia, todas as tardes, pelas alamedas floridas, surpreendentemente bonitas do lugar que o acolhia.
Alternava momentos de intenso ódio em que eu lutava para tentar descobrir onde você estava, porque havia sido de mim tão covardemente arrancado, para outros de completa prostração, onde só o que me ocorria era acabar com a minha própria vida para ir ao seu encontro.
O mundo que
eu vivia com você para supostamente lhe fazer companhia, não era diferente da
realidade do meu. O seu mundo que eu imaginava, era de mortos, fantasmas, caveiras,
e o meu era a luta Quixotesca que eu travava diariamente para tirá-lo de lá.
Elaborava mil possibilidades de me tirar do ar, fugir daquela dor, daquele horrível sepulcro em que vivia, para finalmente desbravar esse desconhecido mundo que o havia tão covardemente de mim arrancado, mas me acovardava sempre e achava que os antidepressivos é que me tiravam as forças, portanto, era urgente parar, mas as tentativas fracassavam sempre, porque a dor era por demais insuportável, e voltava à eles derrotada.
Quatorze meses haviam se passado e até hoje, só consigo me lembrar naquele ano, das tardes inteiras passadas naquele cemitério, o resto dos dias, das noites, o que fazíamos, somente alguns 3 ou 4 flashes conservo, e finalmente, após tantas idas e vindas a centros, igrejas, sinagogas, à procura de ajuda, percebi que ninguém poderia me ajudar, só eu mesma é que poderia fazer algo, e foi o que fiz. Finalmente consegui forças para tirar os comprimidos e assumir novamente minha vida.
A literatura me salvou, e através das dezenas de livros consumidos cheguei ao Zen, e a ele devo minhas mais estimulantes descobertas. Demorei ainda mais seis anos para conseguir sair definitivamente do luto e finalmente ressuscitar deste sofrimento, que é o pior que um ser humano pode passar.
O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte.