Translate

Translate

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Escalando Montanhas

Final de ano, a mesma papagaiada de sempre, e eu anos após anos fazendo a mesmíssima pergunta: porque as pessoas precisam disso?

Enfim, c’est la vie!

Estou aqui em minha casa, sozinha, por opção, escalando uma montanha que parece não ter fim, essa montanha do aprendizado.

Quando penso em tudo que já passei, sinto um conforto, por achar que já passei há tempos da metade, tanto em quantidade de tempo, quanto em sofrimento.

Caminho celeremente para os 63 e gostaria imenso de achar uma graça, alguma, qualquer uma, em qualquer coisa que fosse. Isso não quer dizer que estou infeliz, não, nem de longe, muito menos que esteja feliz, não, nem de longe, estou assim, talvez a palavra que melhor defina seria: apaziguada.

Aos 55 anos, prestei o ENEM, passei e entrei na faculdade, bravos!! Mas os anos da faculdade, muito ao contrário do que todos pensam, e inclusive eu mesma pensava, foram um martírio. Festival de desiguais, em idade, nível social, cultural, econômico, compreensão do mundo, da vida, de tudo. Pessoas procurando alguém para se encostar, e poder levar o diploma sem grandes preocupações. 

O último ano dispensa qualquer comentário, a facú, o estágio e o TCC tudo isso mais o trabalho, foi enlouquecedor, mas enfim passou, como todo o resto e me vi com um diploma, finalmente um diploma para chamar de meu. Naquela idade havia conseguido e no dia que comentei com a minha irmã que já estava de posse do tão sonhado e almejado diploma, que agora era só conseguir uma colocação à altura da minha formação, ela sugere: porque vc não faz um curso de cuidador de idoso?

A sugestão é assunto para outro dia, tamanho desapontamento me causou no momento, e que deu causa ao nascimento, não sem tempo, da compreensão que aquele relacionamento não me interessava em absoluto.

Voltando à vaca fria, eu tinha um diploma, e fui à luta. Fiz tudo que era concurso que aparecia, e fiquei razoavelmente bem colocada em todos, mas nunca fui chamada. Com o tempo percebi que o diploma só servia mesmo para insuflar a minha vaidade, porque para um emprego, o que contava mesmo era a minha idade, 59 anos. As propagandas que vemos constantemente na televisão, dando conta de que pessoas da “melhor idade”, denominação ridícula que obviamente foi criada por algum imbecil, hoje têm facilidade para arrumar emprego, não é verdadeira, exceção feita, acredito, para empregos informais em pizzarias, supermercados, bares, etc...

Era inacreditável, mas o impensável havia acontecido, eu tinha envelhecido, estava na terceira idade, era uma idosa, da noite para o dia, incrível. Pode parecer engraçado para quem tem 30 anos, mas quem já chegou aos 60 sabe muito bem do que eu estou falando. Nada mudou, vc continua sendo quem vc sempre foi, mas do nada, é idoso, do nada está na terceira idade, do nada virou café com leite.

Existe cursos hoje para tudo, a medicina, acredito, deve ser a mais avançada nesse quesito. Tem especialidade até para mãos! Perdoem a ignorância, mas somente agora soube disso, não podia imaginar uma coisa dessas, mas enfim. Mas não tem um especialista para te preparar para essa merda. É como se vc estivesse por ex., caminhando dentro da sua casa, e de repente, do nada, aparecesse uma parede e vc não conseguisse mais acessar os outros cômodos. Como assim? De onde apareceu essa parede? Ninguém te explica porque a parede está ali, e ninguém vem em seu socorro para derrubar a parede, e essa maldita nunca mais desaparecerá, pode esquecer, esse caminho está fechado, ponto final! E fica pior, de tempos em tempos, já saquei, novas paredes aparecerão, e goste ou não terá que se acostumar com mais um caminho interrompido que vc nunca mais acessará. 

E eu venho de inventar essa conversinha, justamente agora, que está na moda ser feliz, publicar o tanto de felicidade que vc tem por ter comprado um carro, por ter ido viajar, por ter casado, se separado, mudado de emprego, estar desempregado, o raio que o parta. Tudo hoje é motivo para vc postar e mostrar que está feliz, não importa o quão infeliz vc esteja. Estou na contramão, porque o que se exige de mim, de nós todos, é que comemoremos tudo, nos maravilhemos com tudo, mostremos o quão felizes podemos ser no desemprego, no descasamento, na menopausa, na terceira idade, ou pior, na “melhor idade”. Temos que nos comportar como estivéssemos esbanjando felicidade na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na juventude e na velhice, na vida e na morte.

Pois para a pqp essa palhaçada! A menopausa foi um desastre de grandes proporções na minha vida, um porre, para mim, e para todos que estavam à minha volta. Sofri os diabos, penei com as malditas ondas de calor, com a irritação constante e uma depressão que fulminou todo o meu ser durante um longo e penoso ano, até que eu descobrisse o que era, como era e como tratar.

E de repente, aqui estou eu, 8 anos pós menopausa, plenamente adaptada.

Meu desafio hoje, “é ser feliz” com essa vida que em parte me foi imposta, e em parte é minha escolha.

Envelhecer é cansar-se de si mesmo.

Mário Silva Brito

quinta-feira, 18 de março de 2021

O Último Personagem

Acabo de completar 60 anos. Chego à conclusão que assim como todo mundo, passei minha vida interpretando. É papel de filha, mãe, irmã, tia, prima, esposa, amiga, subordinado, empregador e por aí afora. Nunca recusei papéis, e embora nem sempre representei com a magnificência desejada, tenho certeza de ter dato o melhor de mim em todos eles, mas nesse momento, estou às voltas com um papel, que recusaria de bom grado, se possível fosse.

Envelhecer deve ser de longe, o pior papel que temos que representar, e o pior, não há como recusar, vai representar e ponto final. Talvez pela obrigatoriedade do papel, muitas das pessoas esbravejam, esperneiam, ficam doentes, fazem botox, usam roupas de jovens, gírias, frequentam lugares cool, atitudes todas que demonstram o quão indignadas estão com papel que lhes foi imposto, afinal, precisamos manter a ilusão que continuamos a representar o papel de jovens.

Olhamos no espelho todos os dias várias vezes, mas não nos vemos realmente. Damos uma olhada rápida no cabelo que acabamos de pentear, limpamos a maquiagem do olho que borrou um pouco, mas não olhamos em profundidade.

Mas aí encontrei uma amiga que não via há muito tempo, e me peguei surpresa ao ver como ela tinha envelhecido, e ato contínuo fiquei imaginando que a impressão dela foi a mesma. Cheguei em casa curiosa e aí sim, fui fazer uma investigação completa olhando de fato cada detalhe do meu rosto. Precisei me segurar para não cortar os pulsos.

Milhares de cursos no Youtube , mas cadê aquele que te prepare para isso? Levar a vida daqui pra frente, onde sei que tudo só vai piorar, já é um enorme desafio, que dizer então levar com classe, representar o papel  e encerrar com dignidade o ciclo da vida e podermos dizer que embora o papel nos tenha sido imposto, não escolhido, conseguimos cumpri-lo integralmente.

Baita desafio!

Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem?

 Confúcio

segunda-feira, 15 de março de 2021

COTIDIANO Nº 2

 

Sexta final de tarde trânsito parado final do túnel escuridão. 

Saber tudo que se tem que saber, cansaço mortal, desejo de desistência, e o médico, colesterol, triglicérides sabe-se lá o que isso quer dizer, academia é remédio. Trânsito parado, vida parada, mesmice, solidão. Calor, apagão, falta de senso, apatia, podridão. Falta de graça, monotonia, preto e branco, sentido nenhum. Contas, trabalho, filhos, chefe, casa, dormir, acordar, tomar banho, e o dinheiro, que não chega nunca, consumição! 

De repente Ipê amarelo, luz, magia, poesia, êxtase, desligamento! 

Novamente o túnel, e novamente o nada da escuridão. Dia, noite, mês, ano, e a casa repleta de coisas para serem feitas que nunca acaba, o trabalho longe, insuportável, o mercado, a feira, as contas, ah... as contas! E o pai que vem pegar o filho, olhar encolerizado, carregado de significado de uma dor que nunca extingue. 

Ar parado, perfume nenhum, e essa perplexidade paralisante, asfixiante.


O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções.

Clarice Lispector

domingo, 14 de março de 2021

Desencanto

 

É uma manhã de sábado insuportavelmente quente, e eu desço a Senador para ir ao centro cerealista de Sampa.

Pelo caminho, a imundície e os mendigos de sempre. No começo me incomodavam demais, hoje já não os noto.

Estava esperando o farol abrir, no cruzamento da Cantareira com a Senador, onde se é que é possível, a imundície é ainda maior que no restante do trajeto. No chão um mendigo deitado num colchão confortavelmente como se estivesse dentro de sua casa. No farol, os camelôs, aos gritos oferecem aos motoristas as enormes bandeiras do Corinthians: era dia de campeonato. 

O mendigo observa, deitado a meio corpo, o cotovelo dobrado segurando a cabeça na mão, olha para mim sorrindo, um sorriso aguado, sem luz, sem graça, sem vida e comenta: "Eu gostava, quando eu gostava do Coringão!"

Meu sábado, ferido de morte tombou!

No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra ...

Drummond 

segunda-feira, 8 de março de 2021

Morte 4 - Vaidade

Mais ou menos no final de outubro, começamos a falar sobre o meu casamento. Nunca mais havíamos feito sexo. Começou a me incomodar demais a péssima situação que vivíamos Durante anos eu acreditei que para os filhos era melhor ver o pai saindo morto de casa, do que de malas prontas numa separação. Misteriosamente eu não achava mais isso. Estava mudada totalmente, queria outra coisa, aquilo já não me servia mais. Estava viva de novo, de fato e de direito. De repente percebi que não tinha o controle, que não poderia poupá-los da vida que aí estava que tinha que seguir em frente e que cada um teria que se virar com a sua dor. Já não havia sentido em carregar aquela relação, morta há tantos e tantos anos.

 

Depois também, havia o fato inquestionável de que sofrimento é tudo aquilo que não temos controle, ou seja, situações e acontecimentos que absolutamente nada podemos fazer para evitar, como por ex. a morte. Nada pude fazer para evitar o que aconteceu, e nada podia fazer para tirar de nós aquela dor imensa. Mas e quanto ao resto? Aquele casamento era um sofrimento que eu impunha não só a mim, mas a todos nós. Isso eu podia mudar. Tentei, mas ainda optando por ele.

 

Queria um casamento diferente daquele que eu vinha arrastando. Queria não ser mais responsável pelas suas inseguranças, pela sua comida, pela sua roupa, pela sua fragilidade etc. Queria poder ficar nos lugares, sem me preocupar se era hora de fazer o jantar ou se ele estava inseguro porque eu não chegava. Queria ficar na cama de manhã, quando ele se levantava sem precisar fazer o seu café. Queria chegar em casa sem o sobressalto de encontrá-lo puto da vida, de cara feia, cheio de recriminações. Queria compartilhar um casamento onde cada um fosse responsável por si mesmo, sem neuras, sem inseguranças, sem reclamações e acusações, e acima de tudo ele teria que parar de beber e isto era tão fundamental quanto impossível.

 

Inútil dizer que as minhas tentativas de mudanças redundaram não só infrutíferas como ainda o iraram mais ainda, fazendo-o beber mais do que já bebia. 

Mas, capítulo à parte, o que detonou mesmo o casamento e terminou o seu final, foi a minha mudança exterior. Então eu eu havia virado um cadáver ambulante, anêmica, cabeça branca, vestindo-me como uma monja e meu ânimo no pé, sem me interessar mais por absolutamente nada, nem mesmo os meus filhos, chorando feito uma condenada dias e noites, me acabando em jejuns e meditações as mais loucas e de repente resolvo voltar atrás? Como era isso, que direito eu pensava ter?  

 

Ele se sentia confortável com o meu aspecto e de repente a mudança o desestabilizou. Só podia ter outro homem, que explicação mais poderia ter? Se eu tivesse morrido naquela época ele ficaria na boa, mas como resolvi voltar para a vida, isso ele não suportou, não pode aguentar. Quando comecei a mudar, ele mudou também. Ficou alerta e em desespero percebia cada uma das mudanças. Quanto mais eu melhorava, mais ele se desesperava. Um dia tomou um porre federal para poder me dizer todas as sandices que ele estava pensando e naquele dia decidi pelo final daquilo, definitivamente.

 

Passado o porre, disse a ele sobre a minha decisão e ele me pediu três meses e eu, achando que estava ajudando-o, dei-lhe um ano. Disse a ele que não precisava me dar nem um tostão, que eu bancaria a casa para que ele economizasse durante aquele ano para poder se instalar com dignidade. Passado esse ano, e vendo que nada acontecia, aluguei um apartamento, reformei-o todo e no dia anterior à mudança ele pediu para ir junto. Disse que se ficasse sozinho naquela casa se mataria, e eu dei mais três meses para que ele ficasse conosco no novo ap.

 

Os três meses se transformaram em um ano e cinco meses, e durante todo esse tempo não deixei que ele pagasse uma conta que fosse para que ele não se sentisse em casa, soubesse que estava de favor e que teria que sair. Suportei aquele tempo com ele heroicamente e foi uma época de torturas indizíveis, em que ele bebeu muito mais do que já bebia. Havia meses em que ele bebia todos os dias, não conseguia entender como ele conseguia ir trabalhar no outro dia como se no dia anterior ele não tivesse tomado o porre que tomara.  

 

Uma noite, cheguei do trabalho ele estava emborcado no sofá, trêbado. Minhas gavetas e roupas todas no chão, ele havia revirado tudo. Esperei ele acordar no outro dia, e disse que ele tinha 24 horas para tirar tudo que era seu. No dia seguinte avisei o porteiro que ele estava proibido de entrar e troquei a fechadura. Assumi definitivamente esse fim, e se algum arrependimento ficou foi por conta do absurdo de eu ter dado à ele todo aquele tempo. Parecia que eu queria me punir, e pior, punindo a eles também, com aquela companhia que tanto nos humilhava e envergonhava.

 

Por outro lado, profissionalmente tudo ia às mil maravilhas. 

O dono da loja, desligado por natureza, me deixava fazer o que eu quisesse, e todas as atitudes que tomei para levantá-la tinha o aval dele, até por desinteresse mesmo.  

 

Estar nas lojas naqueles dias, resolvendo coisas, planejando coisas com ou sem ele foi a melhor coisa daqueles dias tão horríveis. Lá eu me desligava da minha merda de vida. Não era mãe de um filho morto, nem mulher de um bêbado, não era ninguém, apenas um instrumento da loja para fazê-la vender.  

Passávamos grande parte do tempo bolando planos para as lojas faturarem e conseguíamos. A cada dia inventávamos uma coisa nova para atrair os clientes e conseguíamos sempre. O resultado, quase inacreditável! Fechamos o ano com faturamento de sessenta mil reais nas duas lojas e doze na que havia acabado de abrir no Fiesta.

  

Pegar o carro todos os dias e gerenciar as três lojas, estar com os funcionários, ouvir suas histórias, e dar conta de todo a atenção que as lojas exigiam, era esquecer ainda que por momentos, o purgatório que havia dentro de mim. Tudo ficava longe e o tempo passava misteriosamente rápido. Fazíamos compras, recebíamos os fornecedores, conversávamos sobre as estratégias e isso me fazia alheia, mas quando entrava no carro para voltar para casa, a realidade se impunha e ia chorando até em casa. 

 

Mas um dia, como felizmente toda busca tem um fim, o livro que eu que eu tanto procurava, acabou por cair em minhas mãos: O Ponto de Mutação de Fritjof Capra. Através dessa leitura é que cheguei na filosofia oriental e no Zen.  O Zen me ensinou que não havia nada a lamentar, a morte é parte da vida, ninguém é responsável, apenas podemos estar no lugar errado, na hora errada e não há nenhuma explicação mirabolante, tipo: vai voltar, ou: está em outro lugar: ou vocês vão se reencontrar, etc. As explicações, apesar de muito duras, eram racionais, simples, e por que não dizer: belas!

 

Morrem os gafanhotos, morrem os elefantes, morrem os humanos! Tudo está em processo de mudança, e os acidentes são exatamente o que quer dizer a palavra: acontecer de forma imprevisível e o meu desafio impossível era apenas e tão somente esse: ACEITAR!  

 

Eu era uma casa de portas e janelas fechadas e o livro abriu tudo, de par em par. Fiquei mutante durante e depois da leitura, como o próprio nome sugere, e o caminho que trilhei dentro do Zen durante onze anos, me deu a compreensão que eu precisava, inclusive para suportar a segunda tragédia que anos depois novamente me atingiria. A este livro devo minhas mais estimulantes descobertas e escancarou toda a minha desproporção durante aqueles malditos anos.

 

Desisti de procurá-lo e passei a querer compreender a vida. Esta descoberta apaziguou pelo menos metade do sofrimento, pois me tirava a revolta, que era o que mais me oprimia. Aceitei definitivamente o fato de que ele havia morrido, de que eu nunca mais o veria, e da imperiosidade de aprender a ser feliz com o que havia sobrado, e assim consegui definitivamente sair daquele caixão que eu havia dividido todos aqueles anos, vivendo uma morte em vida.

 

A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais. Epicuro


O que não provoca minha morte, faz com que eu fique mais forteFriedrich Nietzsche

 

 

 

Morte 3 - Jejuns e Meditações

Minha psiquiatra deu-me um ultimato, ou arrumava um emprego, ou ela me internaria, pois havia chegado a 48 kg.

Uma semana depois, saindo do supermercado dei com a placa: precisa-se vendedor, entrei e o dono me disse que não poderia oferecer nada além de 100 Cruzeiro Real. A loja estava mal das pernas, movimento quase nenhum, ele tinha intenção de fechar.

 

A pequena loja vendia peças para eletrodomésticos e terceirizava consertos. Nos primeiros três meses, apenas me deixava ficar na loja, vendendo aquelas bobagens, ausente daquilo. 

 

Durante algum tempo estive ausente na loja, mas aos poucos fui acordando para o fato de que o outro funcionário roubava.  No início ele disfarçava, mas ao perceber meu estado quase catatônico, começou a ter confiança no que fazia, e ficava cada vez mais descarado, ao ponto de simplesmente enfiar direto o dinheiro de uma venda dentro do bolso sem passar para o caixa.

 

Minha letargia começou a ceder espaço para uma indignação que crescia a cada dia. A raiva da atitude do rapaz foi fazendo com que eu inconsciente me envolvesse com a loja, até que chegou o dia que resolvi contar. Surpreso, o dono armou uma armadilha e o rapaz foi despedido. Passei então a ficar 12 hs na loja até que outra pessoa fosse contratada. A loja tinha potencial e eu devagar comecei a explorar. Primeiro arrumando as vitrines e trocando toda semana e depois, inconformada com a quantidade de coisas que pediam e não tinha para vender, passei eu mesma a comprar as coisas que pediam e colocar na loja.

 

O movimento foi melhorando. Quando entrei o faturamento era 4.500 Cruzeiro Real, e em setembro chegamos a 22 mil. Aos poucos, sem que houvesse qualquer acordo, os funcionários da outra loja ligavam perguntando se podiam sair mais cedo, chegar mais tarde, dar descontos, pegar dinheiro do caixa. Acabei por virar gerente das duas lojas e o sucesso das duas lojas deu ânimo ao dono de abrir outra que foi inaugurada em dezembro. Agora era gerente das 3 lojas.

 

Por esta época comecei a escrever um diário e a ler livros totalmente diferentes do que eu havia lido até ali. 

Intuía que as respostas estavam nos livros. Ia na livraria que tinha no shopping, fechava os olhos no meio do corredor e pensava: o livro que eu preciso vai me achar, abria os olhos e me decidia por um. A biblioteca que acabei fazendo em casa era para lá de macabra, somente títulos sobre morte. Lia, lia e lia, mas não achava nada que explicasse, que me desse alento, que diminuísse a dor, que me fizesse aceitar, e principalmente que me livrasse daquele ódio que me consumia. Gastava quase todo meu salário em livros, lia freneticamente e assimilava tudo, mas sem encontrar o que eu buscava.

 

Cada vez que achava algo que achava que fazia sentido em algum livro, comprava mais uma dezena que tratassem do mesmo tema, assim ia adquirindo neuras que mutavam a cada nova safra de livros.

 

Uma das neuras que me acompanhou por vários meses, é que ele não estava mais no mundo espiritual, e sim que já estava reencarnado. 

Fazia mil contas e chegava à conclusão que ele deveria ter nascido novamente em janeiro daquele ano e achava também que ele viria até a mim. Todos os bebês que passavam na loja eu perguntava quando tinha nascido e se a mãe falava que era em janeiro eu passava então a procurar alguma coisa naquele bebê que me indicasse que era ele. Nunca achei nada em nenhum deles que fosse capaz de me dar alguma esperança, mas eu não a perdia de vista, e passava horas arquitetando planos do que eu faria se um dia esse tão sonhado bebê aparecesse. Acabei por optar por um que me pareceu bom, me empregaria na casa como babá para poder ficar perto dele.

 

A próxima depois dessa era que eu tinha que perder toda e qualquer vaidade. Quase metade do meu cabelo estava branco e eu nunca pensava na possibilidade de pintá-lo. Com essa aparência que eu piorava com o uso constante de uma bermuda cotton e das camisetas enormes, muitas vezes dele. Fui a um barbeiro daqueles que normalmente a gente não tem coragem de passar nem na porta e pedi para que ele cortasse do jeito que quisesse. Ele cortou meio Chanel e alguns dias depois achei que não estava suficientemente feio, voltei lá e pedi que ele repicasse. A falta de experiência do barbeiro com cabelo de mulher, deixou um corte que era quase vergonhoso de tão feio.

 

Junto com essa neura, adquiri outra. O Livro: A Cura pelo Budismo Tibetano.  O autor, em determinado momento fazia uma provocação: que os ocidentais não conseguiam passar por uma morte em família, porque nem ao menos conseguiam para de fumar ou beber. O segredo, portanto, estava no domínio do corpo, controle-o e poderá aprender a suportar as perdas. Achei  muito pertinente, e decidi que o que eu precisava era tirar coisas em que eu estivesse viciada, que gostasse muito para conseguir dominar meus sentimentos, mas o problema é que eu não tinha vício algum.

 

Fiquei por algum tempo pensando no que eu poderia tirar que eu gostava muito, e acabei por me decidir pela carne, que antes da tragédia, já por diversas vezes havia tentado tirar, e pela Coca-Cola que a época adorava também. À parte disso, também passei a fazer os jejuns sugeridos no livro. Primeiro parei de almoçar. Durante alguns dias ainda sentia fome, depois não mais, vi que era muito fácil também, então comecei a não jantar. Tomava um café da manhã e passava o dia somente com isso. Depois de alguns dias, comecei a alternar. No primeiro dia eu tomava somente o café da manhã, no segundo somente almoço e no terceiro somente jantar. Era um treino para conseguir ficar 48 horas sem comer nada.

 

Nessa época eu ia uma vez por mês na psiquiatra, quando voltei, portanto, ela ficou negativamente impressionada com a minha aparência, pediu diversos exames e constatamos que a minha hemoglobina estava em 7,0, o que me levou a uma anemia que demorei 5 anos para debelar.  Passei então a ir ao consultório uma vez por semana, pois ela estava muito preocupada e queria me acompanhar.

 

Parei os jejuns, mas continuei ainda com uma meditação transcendental que me arrepia lembrar. Começava com o desligamento gradual do cotidiano e imaginava que meu corpo estaria sendo todo picado e os pedaços sendo cozidos em meu próprio crânio. Essa meditação tinha como objetivo a libertação do ego.  

 

Nessa época eu havia mesmo me libertado totalmente da vaidade. Tinha voltado ao barbeiro e passado a máquina 2. Estava horrível, aquela magreza exacerbada pela palidez da anemia, dentro daquelas roupas horríveis que me fazia parecer ainda mais magra e as rugas inevitáveis de quem perde tanto peso. Eu tinha uma pele embaixo do queixo que até agora não consigo entender como desapareceu, parecia uma galinha d’angola. Fico pensando no que a doutora pensava quando me via, e como ela conseguia ficar conversando com aquela calma comigo, me fazendo várias ameaças sem me internar de fato. Ela começou um trabalho tão lento comigo que eu nem percebi que estávamos fazendo um trabalho, mas que de pouco em pouco começou a mostrar resultados.  

 

Começou por me fazer pensar nos meninos e o que sentiam ao ver no que eu havia me transformado. Essa mãe não interessava aos meus filhos. A mãe que eles conheciam era vaidosa, sempre arrumada, de unhas feitas e cheia de interesses por um não acabar de pequenas coisas. Aquela mulher em quem havia me transformado a que fim se destinava? Sair pela rua com um camisolão de algodão e pés no chão pagando penitência? Quem lucraria com aquilo? 

 

O meu desafio de mãe, dizia-me ela, era voltar a vida com todas as suas mazelas e não os jejuns e meditações. O desafio de verdade era voltar e enfrentar tudo o que viesse! 

Tudo fazia parte, rir, me arrumar, arrumar a casa, cuidar deles e me interessar por esse punhado de bobagens que fazem o nosso cotidiano. Depois começou a me dar uma lição de casa semanal que primeiramente eu fazia por pressão, mas aos poucos fui me interessando e gostando de cumprir as tarefas impostas. 


Primeiro foi a alimentação, depois me indicava filmes e livros, e eu tinha que dar à ela a impressão que eu havia tido, mas raramente ela ficava satisfeita e me fazia ver o filme ou ler o livro novamente quantas vezes fossem necessárias, até que ela ficasse satisfeita com o que eu havia depreendido.

 

Lembro-me de um filme em especial: O Feitiço do Tempo, que ela me fez ver 3 vezes e até hoje gosto demais desse filme, e guardo uma boa lembrança. Depois começou a me incentivar a me vestir melhor e não me deu sossego enquanto não fiz um corte melhor no cabelo e o pintei.  Fazia-me comprar sempre uma coisa ou outra e dava dicas de lojas que estavam em liquidação. De pouco em pouco uma nova mulher foi aparecendo, abandonando aquele espectro em que eu havia me transformado.  

O tempo foi passando, e de repente já fazia dois anos que ele tinha ido, e aos poucos comecei a me maquiar para ir trabalhar e vestir roupas femininas.  


O Eu é o mestre do eu . Que outro mestre poderia existir?

Buda

Morte 2 - Esperanças vãs

Um dia, o telefone tocou. Do outro lado uma voz máscula, como a dele: Mãe? Fiquei paralisada e muda. Mãe é você, quem está aí, alô? Não era a voz dele, desliguei e chorei por todo o dia. A impressão do telefonema me perseguiu por meses, pois a maneira estúpida como ele desapareceu, havia me deixado a sensação de que ele não havia morrido. Ficava fantasiado que um pescador o havia achado e cuidado dele e que de uma hora para outra ele apareceria.  Fantasiava esse momento. Imaginava-me voltando por aquela maldita estrada, dirigindo desesperadamente como uma louca, procurando freneticamente pelo endereço e finalmente abraçando-o. Imaginava todos os pormenores que ele me contaria e porque tinha demorado tanto para reaparecer. Cada vez que o telefone tocava, ia atender num sobressalto e aquela tarde, aquela voz tão máscula como a dele do outro lado, me tirou do chão, fiquei suspensa, fora do ar.  Por mais de um ano acalentei essa esperança, até que por fim, tive que engolir o caroço de abate definitivamente e me virar com ele, pois as esperanças morriam dia por dia.  

 

Foi um ano de esperanças que apareciam de todos os lados, e nós dois, apodrecidos pelos ante depressivos, sem possibilidade alguma de discernimento, aceitávamos tudo, esperando um milagre que nem nós sabíamos ao certo precisar qual era.  Íamos mensalmente visitar uma médium, numa cidade a 350 km de SP, porque a psiquiatra e o marido, também médico, achavam que ela poderia nos ajudar. Viajávamos todo primeiro sábado do mês para lá. Saíamos às quatro da madrugada, pegávamos o Dr. A. na casa dele, lá íamos nós esperar por uma possível comunicação dele. que aliás nunca veio, obviamente. Estas viagens eram um desgaste tão grande que não entendo como aguentávamos, no estado deplorável que estávamos. Eram 3 horas de viagem depois ficávamos uma média de 8 horas no meio de um monte de gente esperando para sermos atendidos, sentados em banquinhos, comento lanche que levávamos de casa, porque depois que lá estávamos não podíamos sair mais para não quebrar a corrente ou coisa que o valha. Quando finalmente éramos atendidos, a consulta não demorava mais que 20 minutos, e ao invés de respostas, o que ouvíamos eram perguntas que nos destruía responder: como foi, quando, de que jeito, o que sentimos etc. A resposta que esperávamos, a tão famosa carta psicografada, viria no tempo certo, segundo ela. Na verdade, o que ela fez durante todos esses meses, foi angariar informações para então, depois de oito meses, sair com uma carta que continha exatamente tudo que havíamos falado durante todo aquele tempo. Voltávamos para casa destruídos, e quando finalmente chegávamos aqui, na cara de cada um uma interrogação e no nosso, desânimo, desesperança. 

 

Durante esse tempo que íamos para esta cidade, também enfrentávamos todas as quintas o trânsito infernal das 6 da tarde na Radial para chegarmos num centro espírita que também psicografava cartas. Além de todas as quintas feiras, também íamos no primeiro domingo do mês, dia dedicado às mães que perderam filhos.  Esse centro, aliás, merece um parágrafo especial.  

 

A capacidade do local é para 800 pessoas sentadas e outras tantas em pé, mas no domingo, dizem, chega a três mil pessoas. Eles bolaram um meio eficiente de fazer todas as pessoas acompanharem as orações, musicando todas elas. Todas as vezes que lá estivemos, choramos durante todo o tempo de emoção. Aquilo era muito forte. Parecia que tirava a todos do chão como num show de rock. Uma energia fantástica, impressionante! Apesar de impressionada, aquilo não me movia queria uma resposta, queria entender por que aquilo tinha acontecido, porque ele, por que não eu? Onde ele estava, podia nos ver, sentia algo, sofria? Tinha tantas perguntas e achava que alguém teria as respostas e era isso que eu procurava em todos os lugares que ia. O esquema do centro era exatamente igual ao outro, perguntas e mais perguntas a cada vez que íamos. As respostas que achei foram exatamente a falta delas.

 

A última vez que fui nesse centro, foi exatamente num desses domingos. Chegamos cedo e havia aquela multidão costumeira. Enquanto esperávamos horas a fio numa fila que não tinha mais fim, ficávamos ouvindo as histórias de perda, na nossa frente, atrás, dos lados... Havia um casal que havia perdido num acidente os dois únicos filhos um de 18 e outro de 21 anos. Cada história que eu ouvia me fazia afundar mais e mais naquele lodo movediço que eu habitava. Depois de horas naquela fila começaram a chegar as cartas psicografadas e nós, depois de três longos meses naquela angústia, e quando a carta chegou, continha todos os pormenores do que havíamos dito aos médiuns anteriormente, exatamente como aconteceria mais pra frente no outro centro. Desabamos ali mesmo, tamanha a decepção.

 

Hoje entendo que qualquer coisa que as pessoas façam para minorar o sofrimento alheio, é válido, e a maioria das pessoas que lá vão acreditam nessas cartas e conseguem ter o seu sofrimento minorado. Esses médiuns sacrificam algumas horas da sua semana para fazer algo que acreditam, e hoje, suponho que o que importa é o fim, não o meio, mas na época achei uma sacanagem, encerrei ali definitivamente minha procura, e me encerrei no ódio que me consumia. Alguns anos depois, no Zen, é que foi encontrar a explicação que finalmente me libertaria: Não há explicação, é só assim que a vida é, pessoas nascem, pessoas morrem e a pergunta: por que comigo? seria respondida: por que não comigo? O que eu precisava era aceitação que ele havia ido e que eu teria que voltar a vida, achar a paz custasse o que custasse, por que havia mais dois que precisavam da mãe inteira. 

 

Nos primeiros meses, o caçula ficava na casa da tia, que ficava ao lado da minha. Vinha para casa tomar banho, eu o levava para a escola, ia para o cemitério, e só saia de lá na hora de buscá-lo. Ia direto para a casa da tia, jantava lá e voltava para tomar banho e dormir. Tentava trazê-lo para casa, jogava baralho, xadrez e varetas com ele por algum tempo, mas logo sucumbia novamente, e o mandava de volta para a casa da tia, pois lá ele brincava com o primo, e não precisava ver aquele espetáculo macabro que era a nossa vida. Passados alguns meses, comecei timidamente a tentar reorganizar a minha vida, e com a ajuda da psiquiatra, tentei voltar a vender roupas, o que redundou num fracasso também, pois as clientes eram amigas, faziam perguntas, chorávamos, não, definitivamente aquilo não era possível. Nessa época também, apareceram livros de todo tipo trazida por amigos, vizinhos, na esperança de ajudar-me. Lia tudo, ávida de aprendizado, de respostas. Todos esses livros que li, foram a alavanca para os que viriam, esses sim importantíssimos, e hoje posso dizer que os livros me salvaram.  

 

Pensava constantemente em me matar e não fosse os dois teria sido muito fácil, era só entrar, a porta estava escancarada, mas pensava neles.  Uma "aborrecente" cheia de questões para serem resolvidas e o caçula com 7 anos! Mesmo assim vivia bolando planos mirabolantes. O meio que eu achava mais fácil era atravessar a Raposo para o outro lado, quando estivesse vindo um caminhão por ex. Todas as vezes que ia pela Raposo, avaliava essa possibilidade a cada caminhão que via se aproximando do outro lado. Que época tão terrível, tão triste, tão desumana, tão sem sentido. Que vida era aquela?  

 

As tardes inteiras passadas no cemitério eram para chorar, esbravejar contra deus e me consumir naquele ódio por tudo e todos que eu achava responsáveis pela sua ida. Alimentava minha revolta andando pelas lindas alamedas e fazendo contas da idade que tinham os mortos, todos velhos. Um ou outro jovem, entre eles o meu filho, meu querido e sábio amigo. Tinha dias, que me sentava no banco em frente aquela maldita lápide, testemunha inegável de que ele lá estava, e perdia totalmente a noção do tempo. Por vezes caia uma tempestade e eu lá, sentada, com um ódio pulsando contra esse deus que eu ainda achava que existia e que assistia aquilo com tamanha indiferença. 

 

Nesses momentos me voltava para o céu e dizia toda sorte de insultos. Desafiava-o a derrubar aquela arvore em mim já que era tão poderoso, mas nada acontecia. A natureza não tem piedade, continuava impassível, e assim como mandava a chuva, mandava o sol, e assim como ia embora a chuva, ia embora também o sol e o tempo inexorável a ajudá-los em suas idas e vindas. O tempo, ah o tempo, e eu não sabia que só ele me ajudaria. Se eu soubesse o que sei hoje, teria me poupado metade do sofrimento.

 

Por essa época, peguei um ódio imenso do rapaz que os havia abandonado no mar e rompi definitivamente com toda a família.  Ele poderia tê-los ajudado, se agarraram à ele, mas ele se soltou e os abandonou a própria sorte. Nessa época me agarrava a todos os ódios possíveis,  e essa força imperiosa parecia me ajudar na sobrevivência. Por anos perdia o sono revivendo essa cena: os dois se afogando pedindo ajuda e o covarde simplesmente virando as costas. O que espero, é que ele tenha uma vida muito longa, mas que jamais esqueça essa cena, que esteja presente em cada um dos seus miseráveis dias.

 

Foi assim que passei aquele maldito ano sem ele. Dividida entre a casa, o cemitério, a pena que sentia de nós e o ódio que me cegava e separava de todo o resto.  

Passamos um natal e um ano novo sombrio, tristes, sozinhos, perplexos e profundamente infelizes. Em janeiro fomos até Lindóia com uma família de amigos, para passarmos uma semana do mês de férias. A viagem embora não tenha sido boa, foi importante para sairmos um pouco daquela rotina deprimente. 


Mal terminaram as férias e lá estava eu de novo na mesma rotina, afundada nos ante depressivos, insultando deus no cemitério.  


O universo não tem preferências
Todas as coisas lhes são iguais.
O céu e a terra não são humanos
Não tem qualquer piedade.

O sábio não tem predileções,
É impiedoso ao tratar as pessoas como cães de palha
que serão destruídos no sacrifício.


Lao Tsé


Morte - A Brutal Normalidade


Meu filho faleceu no dia 18 de fevereiro de 1993.  

Caímos lenta, mas constantemente num abismo que não importava quando tempo passasse, continuávamos e continuávamos caindo. A morte não chega para os familiares no mesmo dia, eu diria mesmo que no dia não é morte ainda, é surpresa, susto, desatino, estupor... Você fica extático, mudo, perde a noção do tempo, de valores, de espaço, de tudo. É como se de repente o sangue parasse de correr nas veias, como se o tempo parasse. 

 

As coisas tinham acontecido na minha frente e eu não acreditava que tivessem realmente acontecido. Me lembro de pouca coisa do que aconteceu naquele cemitério, mas lembro-me perfeitamente de uma amiga, me puxando pelo braço e falando algo no meu ouvido, que eu não entendi, apenas achei que ela estava me levando para me dizer algo que me tirasse daquele estupor. Achava que ela me diria que ele não estava naquele caixão, e que me levava para outro lugar aonde ele estivesse vivo.

 

Fui me deixando levar aos tropeções no meio da multidão, ansiosa, angustiada, mas certa que o pesadelo terminaria a hora que ela começasse a falar. Ela parou num determinado lugar e passou a me dizer aquele amontoado de besteiras que as pessoas acham que precisam dizer nessas horas, certas de que estão ajudando, que era aquilo? 

 

Fiquei olhando pra cara dela, mas sem vê-la, como se a voz viesse de muito, muito longe... 

Finalmente me desvencilhei e voltei para o velório, muito pior do que eu estava. 

 

Aqueles dias, até a missa só me lembro da hora que cheguei em casa, as malas na porta da sala, e alguém dizendo que sentia cheiro de flores, ou eu sentia, não sei precisar e nem me lembro de absolutamente mais nada. 


O caçula fica direto na casa da tia, enquanto nós, dopados não conseguíamos sair da cama.. 

 

A missa foi sofrimento à parte. Ele odiava igrejas, mas principalmente odiava padres, por que eu tinha que fazer aquilo? 

Quando encomendamos a missa o padre disse que podia tocar 2 músicas que ele gostasse e a irmã escolheu OCEANS e REVOLUTION. Foi o horror, dos horrores, choramos durante todo o tempo e para completar o sem noção do padre pediu a todos os presentes que viessem nos cumprimentar. Cada abraço o choro redobrava, minha nossa foi uma demonstração de sofrimento público do qual muito me envergonho!

 

Dos dois lados do altar tinha uma fileira de bancos que ficou vazia, e eu podia vê-lo o tempo todo ali, debochando de tudo e dizendo que o padre era um putão, alcunha que ele costumava designar aos padres.  Se eu acreditasse que ele estivesse em algum lugar, não viveria com essa coisa tão pequena que foi aquela missa, e pediria perdão a ele todos os dias pela palhaçada a que nos submeti. 

 

Mas, finalmente a tortura da hipocrisia terminou e voltamos para casa. Passamos todo o mês de março dopados e não me lembro de absolutamente nada, nem um flash, nada. Alguns meses depois tentei diminuir os comprimidos, mas era impossível, porque a morte, como umidade, se infiltrava em cada cédula do nosso corpo, em cada brecha da casa. E vai soltando espinhos e abrindo fendas, chagas, mas bem devagarzinho, e vai se instalando e ficando em cada parte e aparecendo nos sorrisos dos irmãos, no tênis embaixo da escrivaninha que até hoje vejo tão perfeitamente que parece que se eu esticar a mão poderei pegá-los. Na cama intocada, na escrivaninha aonde nunca mais eu o verei sentado, lápis, canetas, borrachas, transferidor, esquadro, réguas, paquímetro, prancheta, cadernos, mochila, livros e as gavetas cheias de papéis ainda virgens e outros com tantas histórias de uma vida interrompida, de poesias, de tantos e tantos sonhos. E os armários cheio de roupas, sapatos, cobertores, chinelos, e no banheiro a escova de dentes e o pente, que até hoje conservo. 

Cadê o dono disso tudo, aonde ele? 

Dormíamos pelo poder dos antidepressivos e assim que a droga dava uma pequena trégua acordávamos aos prantos. 

 

No começo eu pelo menos tentei passar o dia com 2 comprimidos  e até passei alguns dias, mas depois sucumbi ao poder deles, porque além de eu conseguir passar o dia alheia, à noite, eles ajudavam o comprido para dormir fazer um melhor efeito e aí eu conseguia dormir a noite inteira. Os comprimidos me davam uma cegueira e um embotamento que me permitiam viver dentro daquele precipício, daquele buraco lúgubre, úmido, escuro que eu havia caído.  

 

Por alguns momentos, poucos, eu conseguia prestar atenção no que a meninos diziam, e até por vezes, jogar baralho e xadrez com eles, mas isso é algo que na minha lembrança parece um sonho, não parece que era eu que estava lá, tão dopada eu estava sempre. 

 

Durante esses momentos, às vezes eu encontrava os olhos ou mesmo um sorriso deles, ou de repente eu percebia que a minha filha saia do quarto com uma camiseta dele, qualquer coisa por menor que fosse, mas que me levasse à ele, eu acordava e via todas as paredes do precipício à minha volta, e novamente a umidade, e novamente tudo, tudo ali, e eu novamente submergia na areia movediça e por ali ficava, sem luta, apenas me deixando afundar. 

 

É assim que a morte vai chegando, e como posseira, se instalando, cada dia mais confortável dentro de você. Ainda me surpreendo, por vezes, a acordar à noite, esquecida de que ele não está mais conosco. De que em minha casa, só existem três camas.  Que a cama dele já nem existia mais. Que não o verei me procurando por toda parte da casa, como ele sempre fazia, em todos os dias que esteve conosco, para me dar um beijo de bom dia, já com o jornal na mão. Beijava-me já comentando as notícias que o tinham deixado perplexo, e enquanto eu preparava o seu café ele ficava andando atrás de mim, com o jornal na mão, lendo trechos de algo que ele queria que eu soubesse. Tomávamos quase sempre o café da manhã juntos e ele falava, discutia, esbravejava, principalmente por causa da política. Quando eu ia ler o jornal, já sabia de quase tudo. 

 

Quantas e quantas vez ainda fico com a caneca do café parada no ar, alheia, revivendo estes momentos, como se eu os estivesse vivendo mesmo. Quando caio em mim, desabo. Parece que eu não serei capaz de levar o dia pra frente, tamanho o desânimo que toma conta do meu ser. Nem que eu viva duzentos anos, nunca, jamais vou me conformar com isto. Sei que o tempo me ensinará a conviver com isto, mas aceitar nunca! 

 

Durante não sei quanto tempo, a mãe da da minha cunhada ficou na casa deles, cuidando deles e dos meu caçula que não saia mais de lá, só vinha para casa tomar banho para eu levá-lo para escola e para dormir. Não tínhamos mais o hábito de comer juntos, pois esse hábito havia virado uma tortura para todos nós. Sentar-se naquela mesa e ver aquela cadeira vazia não era possível de suportar então passávamos somente com suco de frutas, iogurte, sopas prontas que tomávamos sempre em pé e rapidamente, cada um por sua vez, para não termos que nos encarar.  

 

Aquele primeiro ano passou comigo praticamente na cama, em coma. Desse ano não me lembro de nada, tenho um flash muito longínquo de um dia, não sei precisar quanto tempo fazia que ele havia ido, fomos ao Shopping. Era um dia de semana, morto como são os dias de semana. Conforme fui descendo a rampa fui percebendo aos poucos, uma por uma, cada loja iluminada, funcionando! A surpresa tomando conta de mim, uma incompreensão, algo que só eu entendia. Como podia estar tudo aberto e funcionando? Parece que não aconteceu nada? Sentia meus pés pregando no chão  e atônita olhava sem compreender o por quê das lojas estarem abertas. Fui deixando de sentir minhas pernas e lentamente desci para o chão. Chorava como uma desesperada, como então estava tudo normal, como então as pessoas indo e vindo como se não tivesse acontecido nada? Meu filho estava morto, morto! O que era aquela indiferença, oh eu não podia suportar! Senti um ódio imenso pela normalidade!

 

Foi uma coisa louca, inesquecível, que só eu entendia. Ainda hoje após uma tragédia, seja qual for eu penso: é só sair lá fora e ver que tudo continua absolutamente igual, como se nada tivesse acontecido, que coisa! 

Aquele ano, portanto, passou sem que eu pudesse vê-lo ou senti-lo. As segundas eram iguais aos domingos ou qualquer outro dia e eu nunca sabia que dia era nem da semana que dirá do mês.  Os comprimidos se faziam indispensáveis. Levantar-se da cama, escovar os dentes, tomar banho, comer, as tarefas mais simples e primordiais para o ser humano, eu só conseguia com os comprimidos. Todas as vezes que tentava tirá-los ou diminuí-los, minha vida se perdia nas tarefas mais simples. Tudo o que eu fazia era um sacrifício. Trançava as pernas pela casa, num vai e vem sem fim, me preparando para o banho. Abria e fechava a mesma gaveta não sei quantas vezes. Perdia-me dentro de mim mesma, dentro da minha própria casa.  Ir a qualquer lugar era outro sacrifício que necessitava toda a minha concentração. O único lugar que eu ia e voltava sem problemas era para a escola do caçula e para o cemitério. Outros lugares eu me perdia, não sabia aonde estava, e precisava parar várias vezes para perguntar. Me perdia nos lugares mais impossíveis de se perder, como por ex, na Paulista, na Rebouças, na Dr. Arnaldo. Por vezes eu sabia aonde estava, mas não de que lado estava, se estava indo ou vindo.   

Meu ser, possuído pela ausência/presença dele. 

Nascemos para morrer, conhecemos pessoas para as deixar e ganhamos coisas para as perder.

Buda