Final de ano, a mesma papagaiada de sempre,
e eu anos após anos fazendo a mesmíssima pergunta: porque as pessoas
precisam disso?
Enfim, c’est la vie!
Estou aqui em minha casa, sozinha, por
opção, escalando uma montanha que parece não ter fim, essa montanha do
aprendizado.
Quando penso em tudo que já passei, sinto
um conforto, por achar que já passei há tempos da metade, tanto em quantidade
de tempo, quanto em sofrimento.
Caminho celeremente para os 63 e gostaria
imenso de achar uma graça, alguma, qualquer uma, em qualquer coisa que fosse.
Isso não quer dizer que estou infeliz, não, nem de longe, muito menos que
esteja feliz, não, nem de longe, estou assim, talvez a palavra que melhor
defina seria: apaziguada.
Aos 55 anos, prestei o ENEM, passei e entrei na faculdade, bravos!! Mas os anos da faculdade, muito ao contrário do que todos pensam, e inclusive eu mesma pensava, foram um martírio. Festival de desiguais, em idade, nível social, cultural, econômico, compreensão do mundo, da vida, de tudo. Pessoas procurando alguém para se encostar, e poder levar o diploma sem grandes preocupações.
O último ano dispensa qualquer
comentário, a facú, o estágio e o TCC tudo isso mais o trabalho, foi enlouquecedor, mas enfim
passou, como todo o resto e me vi com um diploma, finalmente um diploma para chamar de meu. Naquela idade havia conseguido e no dia que
comentei com a minha irmã que já estava de posse do tão sonhado e almejado
diploma, que agora era só conseguir uma colocação à altura da minha formação,
ela sugere: porque vc não faz um curso de cuidador de idoso?
A sugestão é assunto para outro dia,
tamanho desapontamento me causou no momento, e que deu causa ao nascimento, não
sem tempo, da compreensão que aquele relacionamento não me interessava em absoluto.
Voltando à vaca fria, eu tinha um diploma,
e fui à luta. Fiz tudo que era concurso que aparecia, e fiquei razoavelmente
bem colocada em todos, mas nunca fui chamada. Com o tempo percebi que o diploma
só servia mesmo para insuflar a minha vaidade, porque para um emprego, o que
contava mesmo era a minha idade, 59 anos. As propagandas que vemos
constantemente na televisão, dando conta de que pessoas da “melhor idade”,
denominação ridícula que obviamente foi criada por algum imbecil, hoje
têm facilidade para arrumar emprego, não é verdadeira, exceção feita, acredito,
para empregos informais em pizzarias, supermercados, bares, etc...
Era inacreditável, mas o impensável havia
acontecido, eu tinha envelhecido, estava na terceira idade, era uma idosa, da
noite para o dia, incrível. Pode parecer engraçado para quem tem 30 anos, mas
quem já chegou aos 60 sabe muito bem do que eu estou falando. Nada mudou, vc
continua sendo quem vc sempre foi, mas do nada, é idoso, do nada está na
terceira idade, do nada virou café com leite.
Existe cursos hoje para tudo, a medicina,
acredito, deve ser a mais avançada nesse quesito. Tem especialidade até para
mãos! Perdoem a ignorância, mas somente agora soube disso, não podia imaginar
uma coisa dessas, mas enfim. Mas não tem um especialista para te preparar para
essa merda. É como se vc estivesse por ex., caminhando dentro da sua casa, e de
repente, do nada, aparecesse uma parede e vc não conseguisse mais acessar os
outros cômodos. Como assim? De onde apareceu essa parede? Ninguém te explica porque a parede
está ali, e ninguém vem em seu socorro para derrubar a parede, e essa maldita nunca mais desaparecerá, pode esquecer, esse caminho está fechado, ponto final! E fica pior, de tempos em tempos, já saquei, novas paredes aparecerão, e goste ou não terá que se acostumar com mais um caminho interrompido que vc nunca mais acessará.
E eu venho de inventar essa conversinha,
justamente agora, que está na moda ser feliz, publicar o tanto de felicidade
que vc tem por ter comprado um carro, por ter ido viajar, por ter casado, se
separado, mudado de emprego, estar desempregado, o raio que o parta. Tudo hoje
é motivo para vc postar e mostrar que está feliz, não importa o quão infeliz vc
esteja. Estou na contramão, porque o que se exige de mim, de nós todos, é que
comemoremos tudo, nos maravilhemos com tudo, mostremos o quão felizes podemos
ser no desemprego, no descasamento, na menopausa, na terceira idade, ou pior,
na “melhor idade”. Temos que nos comportar como estivéssemos esbanjando
felicidade na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na juventude e na
velhice, na vida e na morte.
Pois para a pqp essa
palhaçada! A menopausa foi um desastre de grandes proporções na minha vida, um
porre, para mim, e para todos que estavam à minha volta. Sofri os diabos, penei
com as malditas ondas de calor, com a irritação constante e uma depressão que
fulminou todo o meu ser durante um longo e penoso ano, até que eu descobrisse o
que era, como era e como tratar.
E de repente, aqui estou eu, 8 anos pós
menopausa, plenamente adaptada.
Meu desafio hoje, “é ser feliz” com essa
vida que em parte me foi imposta, e em parte é minha escolha.
Envelhecer é cansar-se de si mesmo.