Mais ou menos no final de outubro, começamos a falar sobre o meu casamento. Nunca mais havíamos feito sexo. Começou a me incomodar demais a péssima situação que vivíamos Durante anos eu
acreditei que para os filhos era melhor ver o pai saindo morto de casa, do que
de malas prontas numa separação. Misteriosamente eu não achava mais isso.
Estava mudada totalmente, queria outra coisa, aquilo já não me servia mais.
Estava viva de novo, de fato e de direito. De repente percebi que não tinha o
controle, que não poderia poupá-los da vida que aí estava que tinha que seguir
em frente e que cada um teria que se virar com a sua dor. Já não havia sentido
em carregar aquela relação, morta há tantos e tantos anos.
Depois também, havia o fato inquestionável
de que sofrimento é tudo aquilo que não temos controle, ou seja, situações e
acontecimentos que absolutamente nada podemos fazer para evitar, como por ex. a
morte. Nada pude fazer para evitar o que aconteceu, e nada podia fazer para tirar de nós aquela dor imensa. Mas e quanto ao resto? Aquele casamento era um
sofrimento que eu impunha não só a mim, mas a todos nós. Isso eu podia
mudar. Tentei, mas ainda optando por ele.
Queria um casamento diferente daquele que
eu vinha arrastando. Queria não ser mais responsável pelas suas inseguranças,
pela sua comida, pela sua roupa, pela sua fragilidade etc. Queria poder ficar
nos lugares, sem me preocupar se era hora de fazer o jantar ou se ele estava
inseguro porque eu não chegava. Queria ficar na cama de manhã, quando ele se
levantava sem precisar fazer o seu café. Queria chegar em casa sem o
sobressalto de encontrá-lo puto da vida, de cara feia, cheio de recriminações.
Queria compartilhar um casamento onde cada um fosse responsável por si mesmo,
sem neuras, sem inseguranças, sem reclamações e acusações, e acima de tudo ele
teria que parar de beber e isto era tão fundamental quanto impossível.
Inútil dizer que as minhas tentativas de
mudanças redundaram não só infrutíferas como ainda o iraram mais ainda,
fazendo-o beber mais do que já bebia.
Mas, capítulo à parte, o que detonou mesmo
o casamento e terminou o seu final, foi a minha mudança exterior. Então eu
eu havia virado um cadáver ambulante, anêmica, cabeça branca, vestindo-me como uma monja e meu
ânimo no pé, sem me interessar mais por absolutamente nada, nem mesmo os meus
filhos, chorando feito uma condenada dias e noites, me acabando em jejuns e
meditações as mais loucas e de repente resolvo voltar atrás? Como era isso, que
direito eu pensava ter?
Ele se sentia confortável com o meu
aspecto e de repente a mudança o desestabilizou. Só podia ter outro homem, que
explicação mais poderia ter? Se eu tivesse morrido naquela época ele ficaria na
boa, mas como resolvi voltar para a vida, isso ele não suportou, não pode
aguentar. Quando comecei a mudar, ele mudou também. Ficou alerta e em desespero
percebia cada uma das mudanças. Quanto mais eu melhorava, mais ele se
desesperava. Um dia tomou um porre federal para poder me dizer todas as
sandices que ele estava pensando e naquele dia decidi pelo final daquilo, definitivamente.
Passado o porre, disse a ele sobre a minha
decisão e ele me pediu três meses e eu, achando que estava ajudando-o, dei-lhe um ano. Disse a ele que não precisava me dar nem um tostão,
que eu bancaria a casa para que ele economizasse durante aquele ano para poder
se instalar com dignidade. Passado esse ano, e vendo que nada acontecia, aluguei um apartamento, reformei-o todo e no dia
anterior à mudança ele pediu para ir junto. Disse que se ficasse sozinho naquela casa se mataria, e eu dei
mais três meses para que ele ficasse conosco no novo ap.
Os três meses se transformaram em um ano e
cinco meses, e durante todo esse tempo não deixei que ele pagasse uma conta que
fosse para que ele não se sentisse em casa, soubesse que estava de favor e que
teria que sair. Suportei aquele tempo com ele heroicamente e foi uma época de
torturas indizíveis, em que ele bebeu muito mais do que já bebia. Havia meses
em que ele bebia todos os dias, não conseguia entender como ele conseguia ir
trabalhar no outro dia como se no dia anterior ele não tivesse tomado o porre
que tomara.
Uma noite, cheguei do trabalho ele estava
emborcado no sofá, trêbado. Minhas gavetas e roupas todas no chão, ele havia revirado
tudo. Esperei ele acordar no outro dia, e disse que ele tinha 24 horas para
tirar tudo que era seu. No dia seguinte avisei o porteiro que ele estava
proibido de entrar e troquei a fechadura. Assumi definitivamente esse fim, e se
algum arrependimento ficou foi por conta do absurdo de eu ter dado à ele todo aquele tempo.
Parecia que eu queria me punir, e pior, punindo a eles também, com aquela
companhia que tanto nos humilhava e envergonhava.
Por outro lado, profissionalmente tudo ia
às mil maravilhas.
O dono da loja, desligado por natureza, me
deixava fazer o que eu quisesse, e todas as atitudes que tomei para levantá-la
tinha o aval dele, até por desinteresse mesmo.
Estar nas lojas naqueles dias, resolvendo
coisas, planejando coisas com ou sem ele foi a melhor coisa daqueles dias tão
horríveis. Lá eu me desligava da minha merda de vida. Não era mãe de um filho
morto, nem mulher de um bêbado, não era ninguém, apenas um instrumento da loja
para fazê-la vender.
Passávamos grande parte do tempo bolando
planos para as lojas faturarem e conseguíamos. A cada dia inventávamos uma
coisa nova para atrair os clientes e conseguíamos sempre. O resultado, quase
inacreditável! Fechamos o ano com faturamento de sessenta mil reais nas duas
lojas e doze na que havia acabado de abrir no Fiesta.
Pegar o carro todos os dias e gerenciar as
três lojas, estar com os funcionários, ouvir suas histórias, e dar conta de
todo a atenção que as lojas exigiam, era esquecer ainda que por momentos, o
purgatório que havia dentro de mim. Tudo ficava longe e o tempo passava
misteriosamente rápido. Fazíamos compras, recebíamos os fornecedores,
conversávamos sobre as estratégias e isso me fazia alheia, mas quando entrava
no carro para voltar para casa, a realidade se impunha e ia chorando até em
casa.
Mas um dia, como felizmente toda busca tem
um fim, o livro que eu que eu tanto procurava, acabou por cair em minhas mãos: O
Ponto de Mutação de Fritjof Capra. Através dessa leitura é que cheguei na
filosofia oriental e no Zen. O Zen me ensinou que não havia nada a
lamentar, a morte é parte da vida, ninguém é responsável, apenas podemos estar
no lugar errado, na hora errada e não há nenhuma explicação mirabolante, tipo:
vai voltar, ou: está em outro lugar: ou vocês vão se reencontrar, etc. As
explicações, apesar de muito duras, eram racionais, simples, e por que não
dizer: belas!
Morrem os gafanhotos, morrem os elefantes,
morrem os humanos! Tudo está em processo de mudança, e os acidentes são
exatamente o que quer dizer a palavra: acontecer
de forma imprevisível e o meu desafio impossível era apenas e tão somente esse:
ACEITAR!
Eu era uma casa de portas e janelas
fechadas e o livro abriu tudo, de par em par. Fiquei mutante durante e depois
da leitura, como o próprio nome sugere, e o caminho que trilhei dentro do Zen
durante onze anos, me deu a compreensão que eu precisava, inclusive para
suportar a segunda tragédia que anos depois novamente me atingiria. A este
livro devo minhas mais estimulantes descobertas e escancarou toda a minha
desproporção durante aqueles malditos anos.
Desisti de procurá-lo e passei a querer compreender a vida. Esta descoberta apaziguou pelo menos metade do sofrimento, pois me tirava a revolta, que era o que mais me oprimia. Aceitei definitivamente o fato de que ele havia morrido, de que eu nunca mais o veria, e da imperiosidade de aprender a ser feliz com o que havia sobrado, e assim consegui definitivamente sair daquele caixão que eu havia dividido todos aqueles anos, vivendo uma morte em vida.
A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais. Epicuro
O que não provoca minha morte, faz com que eu fique mais forte. Friedrich Nietzsche