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segunda-feira, 15 de março de 2021

COTIDIANO Nº 2

 

Sexta final de tarde trânsito parado final do túnel escuridão. 

Saber tudo que se tem que saber, cansaço mortal, desejo de desistência, e o médico, colesterol, triglicérides sabe-se lá o que isso quer dizer, academia é remédio. Trânsito parado, vida parada, mesmice, solidão. Calor, apagão, falta de senso, apatia, podridão. Falta de graça, monotonia, preto e branco, sentido nenhum. Contas, trabalho, filhos, chefe, casa, dormir, acordar, tomar banho, e o dinheiro, que não chega nunca, consumição! 

De repente Ipê amarelo, luz, magia, poesia, êxtase, desligamento! 

Novamente o túnel, e novamente o nada da escuridão. Dia, noite, mês, ano, e a casa repleta de coisas para serem feitas que nunca acaba, o trabalho longe, insuportável, o mercado, a feira, as contas, ah... as contas! E o pai que vem pegar o filho, olhar encolerizado, carregado de significado de uma dor que nunca extingue. 

Ar parado, perfume nenhum, e essa perplexidade paralisante, asfixiante.


O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções.

Clarice Lispector