Meu filho faleceu no dia 18 de fevereiro de 1993.
Caímos lenta, mas constantemente num
abismo que não importava quando tempo passasse, continuávamos e continuávamos
caindo. A morte não chega para os familiares no mesmo dia, eu diria mesmo que
no dia não é morte ainda, é surpresa, susto, desatino, estupor... Você fica
extático, mudo, perde a noção do tempo, de valores, de espaço, de tudo. É como
se de repente o sangue parasse de correr nas veias, como se o tempo
parasse.
As coisas tinham acontecido na minha
frente e eu não acreditava que tivessem realmente acontecido. Me lembro de
pouca coisa do que aconteceu naquele cemitério, mas lembro-me perfeitamente de uma amiga, me puxando pelo braço e falando algo no meu ouvido, que eu não entendi,
apenas achei que ela estava me levando para me dizer algo que me tirasse
daquele estupor. Achava que ela me diria que ele não estava naquele caixão, e
que me levava para outro lugar aonde ele estivesse vivo.
Fui me deixando levar aos tropeções no
meio da multidão, ansiosa, angustiada, mas certa que o pesadelo terminaria a
hora que ela começasse a falar. Ela parou num determinado lugar e passou a me
dizer aquele amontoado de besteiras que as pessoas acham que precisam dizer
nessas horas, certas de que estão ajudando, que era aquilo?
Fiquei olhando pra cara dela, mas sem
vê-la, como se a voz viesse de muito, muito longe...
Finalmente me desvencilhei e voltei para o
velório, muito pior do que eu estava.
Aqueles dias, até a missa só me lembro da hora que cheguei em casa, as malas na porta da sala, e alguém dizendo que sentia cheiro de flores, ou eu sentia, não sei precisar e nem me lembro de absolutamente mais nada.
O caçula fica direto na casa da tia, enquanto nós, dopados não conseguíamos sair da cama..
A missa foi sofrimento à parte. Ele odiava igrejas, mas principalmente odiava padres, por que eu tinha que fazer
aquilo?
Quando encomendamos a missa o padre disse
que podia tocar 2 músicas que ele gostasse e a irmã escolheu OCEANS e
REVOLUTION. Foi o horror, dos horrores, choramos durante todo o tempo e para
completar o sem noção do padre pediu a todos os presentes que viessem nos
cumprimentar. Cada abraço o choro redobrava, minha nossa foi uma demonstração
de sofrimento público do qual muito me envergonho!
Dos dois lados do altar tinha uma fileira
de bancos que ficou vazia, e eu podia vê-lo o tempo todo ali, debochando de
tudo e dizendo que o padre era um putão, alcunha que ele costumava designar aos
padres. Se eu acreditasse que ele estivesse em algum lugar, não
viveria com essa coisa tão pequena que foi aquela missa, e pediria perdão a ele
todos os dias pela palhaçada a que nos submeti.
Mas, finalmente a tortura da hipocrisia
terminou e voltamos para casa. Passamos todo o mês de março dopados e não me
lembro de absolutamente nada, nem um flash, nada. Alguns meses depois tentei diminuir os comprimidos, mas era impossível, porque a morte, como umidade, se
infiltrava em cada cédula do nosso corpo, em cada brecha da casa. E vai
soltando espinhos e abrindo fendas, chagas, mas bem devagarzinho, e vai se
instalando e ficando em cada parte e aparecendo nos sorrisos dos irmãos, no
tênis embaixo da escrivaninha que até hoje vejo tão perfeitamente que parece
que se eu esticar a mão poderei pegá-los. Na cama intocada, na escrivaninha
aonde nunca mais eu o verei sentado, lápis, canetas, borrachas, transferidor,
esquadro, réguas, paquímetro, prancheta, cadernos, mochila, livros e as gavetas
cheias de papéis ainda virgens e outros com tantas histórias de uma vida
interrompida, de poesias, de tantos e tantos sonhos. E os armários cheio de
roupas, sapatos, cobertores, chinelos, e no banheiro a escova de dentes e o
pente, que até hoje conservo.
Cadê o dono disso tudo, aonde ele?
Dormíamos pelo poder dos antidepressivos e
assim que a droga dava uma pequena trégua acordávamos aos prantos.
No começo eu pelo menos tentei passar o
dia com 2 comprimidos e até passei alguns dias, mas depois sucumbi
ao poder deles, porque além de eu conseguir passar o dia alheia, à noite, eles
ajudavam o comprido para dormir fazer um melhor efeito e aí eu conseguia dormir
a noite inteira. Os comprimidos me davam uma cegueira e um embotamento que me
permitiam viver dentro daquele precipício, daquele buraco lúgubre, úmido,
escuro que eu havia caído.
Por alguns momentos, poucos, eu conseguia
prestar atenção no que a meninos diziam, e até por vezes, jogar baralho
e xadrez com eles, mas isso é algo que na minha lembrança parece um sonho, não
parece que era eu que estava lá, tão dopada eu estava sempre.
Durante esses momentos, às vezes eu
encontrava os olhos ou mesmo um sorriso deles, ou de
repente eu percebia que a minha filha saia do quarto com uma camiseta dele, qualquer
coisa por menor que fosse, mas que me levasse à ele, eu acordava e via todas as paredes do precipício à
minha volta, e novamente a umidade, e novamente tudo, tudo ali, e eu novamente
submergia na areia movediça e por ali ficava, sem luta, apenas me deixando
afundar.
É assim que a morte vai chegando, e como
posseira, se instalando, cada dia mais confortável dentro de você. Ainda me
surpreendo, por vezes, a acordar à noite, esquecida de que ele não está mais
conosco. De que em minha casa, só existem três camas. Que a cama
dele já nem existia mais. Que não o verei me procurando por toda parte da casa,
como ele sempre fazia, em todos os dias que esteve conosco, para me dar um
beijo de bom dia, já com o jornal na mão. Beijava-me já comentando as notícias
que o tinham deixado perplexo, e enquanto eu preparava o seu café ele ficava
andando atrás de mim, com o jornal na mão, lendo trechos de algo que ele queria
que eu soubesse. Tomávamos quase sempre o café da manhã juntos e ele falava,
discutia, esbravejava, principalmente por causa da política. Quando eu ia
ler o jornal, já sabia de quase tudo.
Quantas e quantas vez ainda fico com a
caneca do café parada no ar, alheia, revivendo estes momentos, como se eu os
estivesse vivendo mesmo. Quando caio em mim, desabo. Parece que eu não serei
capaz de levar o dia pra frente, tamanho o desânimo que toma conta do meu ser.
Nem que eu viva duzentos anos, nunca, jamais vou me conformar com isto. Sei que
o tempo me ensinará a conviver com isto, mas aceitar nunca!
Durante não sei quanto tempo, a mãe da
da minha cunhada ficou na casa deles, cuidando deles e dos meu caçula que não saia mais de lá,
só vinha para casa tomar banho para eu levá-lo para escola e para dormir. Não
tínhamos mais o hábito de comer juntos, pois esse hábito havia virado uma
tortura para todos nós. Sentar-se naquela mesa e ver aquela cadeira vazia não
era possível de suportar então passávamos somente com suco de frutas, iogurte,
sopas prontas que tomávamos sempre em pé e rapidamente, cada um por sua vez,
para não termos que nos encarar.
Aquele primeiro ano passou comigo praticamente na cama, em coma. Desse ano não me lembro de nada, tenho um flash muito
longínquo de um dia, não sei precisar quanto tempo fazia que ele havia ido,
fomos ao Shopping. Era um dia de
semana, morto como são os dias de semana. Conforme fui
descendo a rampa fui percebendo aos poucos, uma por uma, cada loja iluminada,
funcionando! A surpresa tomando conta de mim, uma incompreensão, algo que só eu
entendia. Como podia estar tudo aberto e funcionando? Parece que não aconteceu
nada? Sentia meus pés pregando no chão e atônita olhava sem compreender o por quê das lojas estarem abertas. Fui deixando de sentir minhas pernas e lentamente desci para o chão. Chorava como uma desesperada, como então estava
tudo normal, como então as pessoas indo e vindo como se não tivesse acontecido
nada? Meu filho estava morto, morto! O que era aquela indiferença, oh eu não podia
suportar! Senti um ódio imenso pela normalidade!
Foi uma coisa louca, inesquecível, que só
eu entendia. Ainda hoje após uma tragédia, seja qual for eu penso: é só sair lá
fora e ver que tudo continua absolutamente igual, como se nada tivesse
acontecido, que coisa!
Aquele ano, portanto, passou sem que eu pudesse vê-lo ou senti-lo. As segundas eram iguais aos domingos ou qualquer outro dia e eu nunca sabia que dia era nem da semana que dirá do mês. Os comprimidos se faziam indispensáveis. Levantar-se da cama, escovar os dentes, tomar banho, comer, as tarefas mais simples e primordiais para o ser humano, eu só conseguia com os comprimidos. Todas as vezes que tentava tirá-los ou diminuí-los, minha vida se perdia nas tarefas mais simples. Tudo o que eu fazia era um sacrifício. Trançava as pernas pela casa, num vai e vem sem fim, me preparando para o banho. Abria e fechava a mesma gaveta não sei quantas vezes. Perdia-me dentro de mim mesma, dentro da minha própria casa. Ir a qualquer lugar era outro sacrifício que necessitava toda a minha concentração. O único lugar que eu ia e voltava sem problemas era para a escola do caçula e para o cemitério. Outros lugares eu me perdia, não sabia aonde estava, e precisava parar várias vezes para perguntar. Me perdia nos lugares mais impossíveis de se perder, como por ex, na Paulista, na Rebouças, na Dr. Arnaldo. Por vezes eu sabia aonde estava, mas não de que lado estava, se estava indo ou vindo.
Meu ser, possuído pela ausência/presença dele.
Nascemos para morrer, conhecemos pessoas para as deixar e ganhamos coisas para as perder.