Minha psiquiatra deu-me um ultimato, ou
arrumava um emprego, ou ela me internaria, pois havia chegado a 48 kg.
Uma semana depois, saindo do supermercado
dei com a placa: precisa-se vendedor, entrei e o dono me disse que não poderia
oferecer nada além de 100 Cruzeiro Real. A loja estava mal das pernas,
movimento quase nenhum, ele tinha intenção de fechar.
A pequena loja vendia peças para
eletrodomésticos e terceirizava consertos. Nos primeiros três meses, apenas me
deixava ficar na loja, vendendo aquelas bobagens, ausente daquilo.
Durante algum tempo estive ausente na
loja, mas aos poucos fui acordando para o fato de que o outro funcionário roubava.
No início ele disfarçava, mas ao perceber meu estado quase catatônico,
começou a ter confiança no que fazia, e ficava cada vez mais descarado, ao ponto
de simplesmente enfiar direto o dinheiro de uma venda dentro do bolso sem
passar para o caixa.
Minha letargia começou a ceder espaço para
uma indignação que crescia a cada dia. A raiva da atitude do rapaz foi fazendo
com que eu inconsciente me envolvesse com a loja, até que chegou o dia que resolvi
contar. Surpreso, o dono armou uma armadilha e o rapaz foi despedido. Passei então
a ficar 12 hs na loja até que outra pessoa fosse contratada. A loja tinha
potencial e eu devagar comecei a explorar. Primeiro arrumando as vitrines e trocando
toda semana e depois, inconformada com a quantidade de coisas que pediam e não
tinha para vender, passei eu mesma a comprar as coisas que pediam e colocar na
loja.
O movimento foi melhorando. Quando entrei
o faturamento era 4.500 Cruzeiro Real, e em setembro chegamos a 22 mil. Aos
poucos, sem que houvesse qualquer acordo, os funcionários da outra loja ligavam
perguntando se podiam sair mais cedo, chegar mais tarde, dar descontos, pegar
dinheiro do caixa. Acabei por virar gerente das duas lojas e o sucesso das duas
lojas deu ânimo ao dono de abrir outra que foi inaugurada em dezembro. Agora
era gerente das 3 lojas.
Por esta época comecei a escrever um
diário e a ler livros totalmente diferentes do que eu havia lido até ali.
Intuía que as respostas estavam nos
livros. Ia na livraria que tinha no shopping, fechava os olhos no meio do
corredor e pensava: o livro que eu preciso vai me achar, abria os olhos e me
decidia por um. A biblioteca que acabei fazendo em casa era para lá de macabra,
somente títulos sobre morte. Lia, lia e lia, mas não achava nada que
explicasse, que me desse alento, que diminuísse a dor, que me fizesse aceitar,
e principalmente que me livrasse daquele ódio que me consumia. Gastava quase todo meu salário em livros, lia
freneticamente e assimilava tudo, mas sem encontrar o que eu buscava.
Cada vez que achava algo que achava que
fazia sentido em algum livro, comprava mais uma dezena que tratassem do mesmo tema,
assim ia adquirindo neuras que mutavam a cada nova safra de livros.
Uma das neuras que me acompanhou por
vários meses, é que ele não estava mais no mundo espiritual, e sim que já estava
reencarnado.
Fazia mil contas e chegava à conclusão que
ele deveria ter nascido novamente em janeiro daquele ano e achava também que
ele viria até a mim. Todos os bebês que passavam na loja eu perguntava quando
tinha nascido e se a mãe falava que era em janeiro eu passava então a procurar
alguma coisa naquele bebê que me indicasse que era ele. Nunca achei nada em
nenhum deles que fosse capaz de me dar alguma esperança, mas eu não a perdia de
vista, e passava horas arquitetando planos do que eu faria se um dia esse tão
sonhado bebê aparecesse. Acabei por optar por um que me pareceu bom, me
empregaria na casa como babá para poder ficar perto dele.
A próxima depois dessa era que eu tinha
que perder toda e qualquer vaidade. Quase metade do meu cabelo estava branco e
eu nunca pensava na possibilidade de pintá-lo. Com essa aparência que eu
piorava com o uso constante de uma bermuda cotton e das camisetas
enormes, muitas vezes dele. Fui a um barbeiro daqueles que normalmente a gente
não tem coragem de passar nem na porta e pedi para que ele cortasse do jeito
que quisesse. Ele cortou meio Chanel e alguns dias depois achei que não estava
suficientemente feio, voltei lá e pedi que ele repicasse. A falta de
experiência do barbeiro com cabelo de mulher, deixou um corte que era quase
vergonhoso de tão feio.
Junto com essa neura, adquiri outra. O
Livro: A Cura pelo Budismo Tibetano. O
autor, em determinado momento fazia uma provocação: que os ocidentais não
conseguiam passar por uma morte em família, porque nem ao menos conseguiam para
de fumar ou beber. O segredo, portanto, estava no domínio do corpo, controle-o
e poderá aprender a suportar as perdas. Achei muito pertinente, e decidi
que o que eu precisava era tirar coisas em que eu estivesse viciada, que
gostasse muito para conseguir dominar meus sentimentos, mas o problema é
que eu não tinha vício algum.
Fiquei por algum tempo pensando no que eu
poderia tirar que eu gostava muito, e acabei por me decidir pela carne, que
antes da tragédia, já por diversas vezes havia tentado tirar, e pela Coca-Cola
que a época adorava também. À parte disso, também passei a fazer os jejuns
sugeridos no livro. Primeiro parei de almoçar. Durante alguns dias ainda sentia
fome, depois não mais, vi que era muito fácil também, então comecei a não
jantar. Tomava um café da manhã e passava o dia somente com isso. Depois de alguns
dias, comecei a alternar. No primeiro dia eu tomava somente o café da manhã, no
segundo somente almoço e no terceiro somente jantar. Era um treino para
conseguir ficar 48 horas sem comer nada.
Nessa época eu ia uma vez por mês na psiquiatra,
quando voltei, portanto, ela ficou negativamente impressionada com a minha
aparência, pediu diversos exames e constatamos que a minha hemoglobina estava em 7,0, o que me levou a uma anemia que demorei 5 anos para debelar. Passei então a ir ao consultório uma vez por
semana, pois ela estava muito preocupada e queria me acompanhar.
Parei os jejuns, mas continuei ainda com
uma meditação transcendental que me arrepia lembrar. Começava com o
desligamento gradual do cotidiano e imaginava que meu corpo estaria sendo todo
picado e os pedaços sendo cozidos em meu próprio crânio. Essa meditação tinha
como objetivo a libertação do ego.
Nessa época eu havia mesmo me libertado totalmente
da vaidade. Tinha voltado ao barbeiro e passado a máquina 2. Estava horrível,
aquela magreza exacerbada pela palidez da anemia, dentro daquelas roupas
horríveis que me fazia parecer ainda mais magra e as rugas inevitáveis de quem
perde tanto peso. Eu tinha uma pele embaixo do queixo que até agora não consigo
entender como desapareceu, parecia uma galinha d’angola. Fico pensando no que a
doutora pensava quando me via, e como ela conseguia ficar conversando com
aquela calma comigo, me fazendo várias ameaças sem me internar de fato. Ela
começou um trabalho tão lento comigo que eu nem percebi que estávamos fazendo
um trabalho, mas que de pouco em pouco começou a mostrar resultados.
Começou por me fazer pensar nos meninos e
o que sentiam ao ver no que eu havia me transformado. Essa mãe não interessava
aos meus filhos. A mãe que eles conheciam era vaidosa, sempre arrumada, de
unhas feitas e cheia de interesses por um não acabar de pequenas coisas. Aquela
mulher em quem havia me transformado a que fim se destinava? Sair pela rua com
um camisolão de algodão e pés no chão pagando penitência? Quem lucraria com
aquilo?
O meu desafio de mãe, dizia-me ela, era
voltar a vida com todas as suas mazelas e não os jejuns e meditações. O desafio
de verdade era voltar e enfrentar tudo o que viesse!
Tudo fazia parte, rir, me arrumar, arrumar
a casa, cuidar deles e me interessar por esse punhado de bobagens que fazem o
nosso cotidiano. Depois começou a me dar uma lição de casa semanal que
primeiramente eu fazia por pressão, mas aos poucos fui me interessando e gostando
de cumprir as tarefas impostas.
Primeiro foi a alimentação, depois me
indicava filmes e livros, e eu tinha que dar à ela a impressão que eu havia
tido, mas raramente ela ficava satisfeita e me fazia ver o filme ou ler o livro
novamente quantas vezes fossem necessárias, até que ela ficasse satisfeita com
o que eu havia depreendido.
Lembro-me de um filme em especial: O Feitiço do Tempo, que ela me fez ver 3 vezes e até hoje gosto demais desse filme, e guardo uma boa lembrança. Depois começou a me incentivar a me vestir melhor e não me deu sossego enquanto não fiz um corte melhor no cabelo e o pintei. Fazia-me comprar sempre uma coisa ou outra e dava dicas de lojas que estavam em liquidação. De pouco em pouco uma nova mulher foi aparecendo, abandonando aquele espectro em que eu havia me transformado.
O tempo foi passando, e de repente já fazia dois anos
que ele tinha ido, e aos poucos comecei a me maquiar para ir trabalhar e vestir
roupas femininas.
O Eu é o mestre do eu . Que outro mestre poderia existir?