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terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Saudades de ninguém



Houve um tempo, beeeeem lá no passado, em que eu me sentia alguém.

Esse alguém, que eu sentia ser, vivia assoberbada de milhares de tarefas para fazer e assuntos para resolver.  Uma vida miserável, que me obrigava a ter planos, objetivos que me alavancassem para frente, para não enlouquecer. Achava que lá na frente, tudo se resolveria, e então eu poderia ser feliz e era essa certeza que me fazia crer que eu era alguém.

Hoje, já com os pés fincados no chão, sem neuras ou dores de qualquer espécie e a compreensão adquirida de que os objetivos não passam de mero engodo para nos distrair da dor dessa estúpida jornada sem sentido algum, entendo o quão ninguém eu era.

Espio então o passado com a nostalgia que espiamos uma guilhotina no museu, e não sinto saudade alguma daquele ser, tão inocente, tão ninguém!

Só o que se transforma continua meu amigo

Nietzsche







Aparecida Maria "A Benzedeira"


Uma das coisas que Aparecida Maria aprendeu a fazer para ajudar o semelhante, foi "benzer"

Apesar de benzedeira, ser o único nome possível dado a quem benze, ela odiava a alcunha, e fazia questão de demonstrar com todas as letras do alfabeto o quanto odiava.

Todos os dias aparecia pelos menos duas pessoas no portão pedindo por benzimentos. Se perguntavam: é aqui que mora a benzedeira? Pronto, ela virava um bicho, falava uma porção de sandices e fazia a pessoa voltar para o benzimento somente no outro dia: É para aprender a ter respeito! 

Caso a pessoa estivesse muito mal, e implorasse muito ela benzia no mesmo dia, mas fazia várias descomposturas primeiro.

Os  benzimentos serviam para qualquer tipo de queixa: afastar maus espíritos, arrumar emprego, curar quebranto, bucho virado, prisão de ventre, ar na vista, na cabeça, pé bichado, dor de dente, erisipela, etc, e ela não se furtava, se não houvesse um benzimento específico, não tinha problema algum, ela customizava algum na hora.

Conhecia também centenas de ervas que empregava para cortes e quebraduras. Fazia uma mistureba das ervas cruas, cozidas ou trituradas e colocava diretamente nos cortes ou enrolava em panos que amarrava nas quebraduras. Era como um curandeiro de tribo, "sabia" exatamente que erva usar para cada caso específico.

As pessoas nutriam por ela um profundo respeito, afinal, os subúrbios aquela época, eram selvas,
 sem uma farmácia que fosse por perto, suas ervas e rezas eram a única coisa com a qual as pessoas podiam contar, a ajuda que ela oferecia, portanto, não tinha preço. Não importava se iria resolver ou não, na hora do desespero, a única coisas que as pessoas precisavam era de alguém que fizesse algo. As vezes o doente morria, mas doentes morriam mesmo, em todo e qualquer lugar, ninguém a culpava, mas se conseguiam a cura, ela era a responsável, e a fama só fazia crescer.

Era convidada para tudo que era festa, madrinha de casamento e principalmente madrinha de crianças. Gabava-se de não saber a maioria dos nomes dos afilhados por já terem passado de cem. 


Ficava sempre envaidecida quando alguém a parava na rua para pedir benção porque era afilhado dela. Uma vez em especial, ela já passada dos oitenta anos, um padre a parou na volta da feira para lhe dar carona e dizer que era afilhado dela, esse dia, deve ter sido um dos mais importantes de sua vida. 

Quanta honra um afilhado se tornar padre!
contou essa história até o fim dos seus dias, apesar de ser espírita praticante.


sábado, 22 de dezembro de 2018

Aparecida Maria "Uma Ajudante"


A família de Aparecida Maria era composta de seis pessoas, e além do trabalho de cuidar de tanta gente, ainda lavava e passava camisas brancas de tricolina com o ferro aquecido com brasa de carvão, de seis homens de diferentes famílias, para ajudar no apertado orçamento.

Traumatizada pela perda das duas primeiras filhas, sapeava de cá pra lá em igrejas, sinagogas, centros espírita, nos mais recônditos lugares imagináveis em busca de proteção espiritual. Conversava animadamente com o marido quando ele estava em casa e fazia sexo todas as vezes que era solicitada, e quando alguém vinha pedir conselhos para o casamento que ia mal, ela sempre aconselhava a atender o marido na cama, segundo ela, o segredo para um casamento feliz, ideia que sustentou até a hora de morrer.

Dona de um temperamento rebelde, crítico, indócil e repressor, ajudava toda e qualquer pessoa que precisasse de ajuda, de doentes a parturientes, não se furtava, corria da casa dela para a casa do necessitado sem medir esforços, na tentativa de apaziguar o espírito crítico, rebelde, indócil e repressor que a habitava. 

Rezava por dias ou meses na cabeça de um doente, exortando o pobre povo do além que não tinha um minuto sequer de sossego com ela, a virem ajudar ou a deixar em paz a criatura, conforme o caso.

Quando morria, lavava o cadáver, vestia, penteava, e se fosse homem barbeava. Colocava o defunto em cima da mesa da cozinha ou de jantar e arrumava o caixão com as flores que havia mandado as crianças catar nos jardins e matos da vizinhança.

Durante toda a noite em que velavam o defunto, ela se desdobrava, puxando orações, fazendo e distribuindo café, consolando algum parente, ou contando alguns "causos" engraçados, segundo ela, para espantar o sono. 

Depois acompanhava a família até o cemitério, sempre rezando, e na hora da despedida fazia um bonito discurso. 

Depois, voltava para a casa do falecido, ajudava a limpar tudo, e depois tomava café animadamente, com as comadres na mesma mesa onde o falecido havia sido velado por toda a noite. 

Não devemos chorar nem sofrer pelos mortos, esse era o seu lema.

Aparecida Maria "A Leitora"



Aparecida Maria, teve uma infância difícil, como difícil deveria ser todas as infâncias à época.

Já adulta, quando apaixonou-se perdidamente não teve dúvidas, casou-se, largou a família e a cidade e veio parar em Sampa, com a ajuda de um dos irmãos.

Com vinte anos engravidou, e a primeira filha nasceu morta, depois de um trabalho de parto que durou sete dias, de dores inimagináveis.

Após um ano engravidou novamente, e a segunda filha morreu de pneumonia aos oito meses de idade.

As duas perdas seguidas deixaram-na prostrada, sabia que tinha que fazer alguma coisa, mas o quê, morando numa perfeita selva que era um subúrbio de Sampa em 1941.

Pediu então ao irmão mais novo, que passava um tempo com a família que a ensinasse a ler e escrever.

Virou uma leitora inquieta, devorando todos os livros que o irmão trazia.

Influenciada pelas leituras, passou a pesquisar freneticamente todo tipo de religião. Igrejas de todo tipo, centros espíritas, templos, sinagogas e até o Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, lugar que ensinava uma filosofia extremamente sofisticada, que obviamente ela não conseguia alcançar, mas que mesmo assim frequentou durante anos.

Levava os filhos junto para todos esses lugares, e conforme iam crescendo ela trocava pelo mais novo. Duas vezes por semana, passava mão em dos filhos e pegava o trem para ir a um destes lugares. Só não ia mais vezes porque o dinheiro não dava para a condução.

A vida tinha sido cruel com ela, precisava não só entender aquele sofrimento todo, como também se precaver para que não acontecesse mais.

Lia incansavelmente todo tipo de filosofia e religião, fazia as interpretações que a interessavam, e depois misturava tudo, acabando por fazer uma miscelânea formidável que só ela entendia. 

Achou nessas religiões, um modo de fazer contato com o povo do além, e deu à eles a responsabilidade de proteger a si mesma e a família de todo e qualquer mal, e nunca deixou de creditar a eles tudo que de bom acontecia em sua vida até morrer.


Uma pessoa se torna muito forte quando seu objetivo é proteger algo ou alguém.
Fallen Angel






EUTANÁSIA




- What the fuck?

- O Beto morreu!

- Isso eu já sei, e já faz dois dias, porque não parou de chorar ainda, não aguento mais, fecha essa torneira, por caridade!

- O BETO MORREEEEEEEEU!

- Vinte anos de vida, um mês definhando e sofrendo cada dia mais, não estava na hora?

- Como pode ser tão insensível?

- Ok, vamos destrinchar isso, o que está doendo tanto?

A pergunta me pegou desprevenida, o quê, ou, o porquê de estar doendo tanto. Sou pragmática, fiz absolutamente tudo que estava ao meu alcance. Comidas diferentes, remédios, dias inteiros de soro a cada meia hora, noites mal dormidas acordando a todo e qualquer barulho para leva-lo ao banheiro, sim, eu fiz tudo que o que era possível fazer.

Minha paciência resultava intacta, conseguiria levar aquilo por mais quanto tempo fosse, mas meu coração não suportava mais, e tive que tomar aquela dura decisão. Já havia marcado por duas vezes, mas somente na terceira é que consegui, e enquanto esperava, a adrenalina que foi disparada em meu sangue, se transformou num medo absurdo, que me tirou a possibilidade de respirar. Passei a andar pela casa, respirando pela boca rapidamente, na tentativa desesperada de fazer o corpo voltar ao normal, e assim, aos prantos, atravessei as longas quatro horas que me separavam da hora final.

Quando conseguia me acalmar um pouco, conversava com ele, recordava coisas pelas quais passamos juntos e o levava a janela para que se despedisse dessa paisagem caótica que ele tanto gostava de ficar admirando.

Finalmente, quando chegou a hora, me despedi aos prantos implorando para que ele me perdoasse.

E agora, depois de tudo acabado, não consigo mais parar de chorar, porquê?

Isolda, essa velha descabelada, sábia, sonolenta, e indiferente passa a vasculhar por  todo meu interior a procura de resposta.

Tento argumentar fazendo perguntas superficiais: Acabo de passar por uma morte, porque não posso chorar pelo tempo que quiser? 

Mas ela implacável, não me ouve, continua a vasculhar papeis e gavetas, a jogar coisas fora, até que encontra algo, e sabedora que eu sabia o conteúdo do que achara, apenas espera meu pronunciamento.

Olho espantada para a descoberta e aí sim, desabo num sofrimento que até então desconhecia, a dor da responsabilidade de ser obrigada a tomar uma decisão sobre o término de uma vida, absolutamente sozinha, sem ajuda, porque ninguém, absolutamente ninguém poderia compartilhar da minha decisão, ela era apenas e tão somente minha, e aquele, foi um dos maiores pesos que aos sessenta e três anos foi colocado em minhas costas.  

Vê-lo definhar me enchia de pena, doía demais, mas eu teria parado após o final, pois sabia que ele não sofria mais, mas o que doía agora, era a pena de mim mesma, a pena por me saber tão fraca para coisas desse tipo e ter que me transformar em forte para poder tomar a decisão, ah eu estava morrendo de pena de mim!

- Olhei com raiva para ela. Satisfeita agora?

- Quando estiver satisfeita, estarei também, of course.  E resoluta continua fuçando minhas gavetas até novamente encontrar algo. Maldito ego dos infernos!

Ah sim, olhei lá e lá estava: a zona de conforto da qual eu havia sido arrancada. A deliciosa cama quentinha na noite chuvosa e fria. O trem havia descarrilado, e ser OBRIGADA a sair na intempérie para recoloca-lo nos trilhos, havia corroborado para me deixar naquele estado.

Isolda soltou um sorriso quase imperceptível, bateu com os dedos na testa à guisa de continência, virou as costas e voltou para as profundezas, e eu já nos trilhos, voltei a minha vida agora já em paz, mas cheia dos questionamentos deixados pelo evento.

Esse foi o Sr. Beto, um gato antissocial, chatíssimo, que amei como se ama um filho, e que me deixou cinco meses antes de completar os seus vinte anos. 

Que descanse em paz!


Esta consciência, que faz de todos nós covardes.

Shakespeare

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Mana



Minha irmã do meio era a única pessoa que eu conhecia que sabia da minha existência, e isso para mim já era motivo de sobra para adorá-la!

Muito antes de eu entrar na escola, ensinou-me a ler e a escrever.

Trabalhava numa oficina de costura, e as sobras de tecido ela trazia para casa e fazia roupinhas para mim. Digo roupinhas porque como eram sobras, nunca dava para fazer mais do que um short  ou um tipo de mini blusa que não existia à época, e que, portanto, posso dizer sem sombra de dúvida, que ela foi a precursora dessa moda.

Enquanto eu era menina, se ela estivesse em casa, desistia dos folguedos todos, para ficar ao seu redor, ajudando-a nos seus afazeres.

Era uma moça miúda, frágil e linda!

À medida que fui crescendo fomos ficando cada vez mais amigas, e mesmo depois que de casadas, continuamos sempre muito próximas, por muitos anos.

Mas o pra sempre, sempre acaba, e um dia o trem descarrilou, e nós nos perdemos, e perdemos aquela relação que era tão importante para ambas, e embora tenhamos tentado por diversas vezes, nunca mais conseguimos recolocar o trem de volta aos trilhos.

De tropeção em tropeção, fomos colecionando rancores, por acharmos que eram imprescindíveis, e o tempo inexorável em sua marcha, deixando aquela amizade nas brumas, delineando as idosas solitárias que hoje somos.

As mágoas todas acumuladas, deixaram em meu ser a certeza de que infelizmente não há volta para tudo que deixamos para trás, em nome da vaidade, arrogância, orgulho, imaturidade...

 Hoje, olho o espelho e procuro com grande inter​esse as marcas que mudam a minha fisionomia dia por dia e penso que muitas delas eu poderia ter evitado, apenas pulando algumas partes tão absolutamente desnecessárias!

A juventude é fera indomável e suas vantagens e desvantagens formam montanhas de igual proporção.

O valor de uma coisa às vezes não está no que se consegue com ela, mas no que se paga por ela - o que ela nos custa.

Nietzsche

Linha torta


Costumamos achar que lutar pela sobrevivência, nosso instinto primordial, consiste apenas em nos mantermos vivos.

Para nós, seres humanos, porém, sobreviver é estar no topo, em todos os segundos da vida, e isso significa que somos os melhores em absolutamente tudo, e as redes sociais não nos deixam mentir. Jamais declaramos que perdemos o controle, que bebemos demais, que fizemos errado seja lá qual coisa for, essa é a condição humana que nos representa nos dias atuais.

Maquiamos nossas selves, o emprego, a mulher ou marido, o carro, a casa, a viagem, o restaurante e até o prato que comemos. Absolutamente tudo tem que ser perfeito. 

Vivemos todos dentro dos estúdios de gravação do Show de Truman.

As páginas do Face, são todas iguais, não importa de quem seja, todos estão fazendo exatamente as mesmas coisas. Postando viagens, carros, restaurantes, amigos, fazendo biquinho, se mostrando em poses de absoluta e total felicidade, simplesmente porque nos acostumamos a fingir que estamos no topo para imitar os que realmente estão, e que convenhamos, são raros. 

Desafios que não conseguimos vencer, já temos de sobra no trabalho, nos relacionamentos, no trânsito... Para que inventar mais um que afinal não está atrapalhando ninguém, e depois, todo mundo tem o programa e ninguém está se sentindo desafiado a desinstalá-lo, porque eu teria?

Quando chegamos já estava assim, e assim prosseguimos, e assim confessamos a nossa total falta de criatividade para reverter, afinal, confessar que estamos agindo feito robôs, nos tira do imaginário topo, então prosseguimos com nossas pseudo seguranças, que faz de nós cordeirinhos do rebanho, seres comuns, sem nenhum atrativo, sem nada de especial para mostrar às pessoas que estão à nossa volta, pessoas que estão fazendo e vivendo conosco a nossa história, essa história falsa das redes sociais.


POEMA EM LINHA RETA

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma fez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

Álvaro de Campos







terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Recomeço

Havia três meses que o conhecia, mas aquela era a primeira vez que saíamos juntos.
Estava de luto há tantos anos, que ninguém mais se lembrava que atrás daquele espectro que se arrastava pela casa havia ainda uma mulher.

Ela estava me esperando sentada no sofá, invertendo os papéis, e quando entrei se levantou, e disparou um olhar cheio de farpas, e a expressão facial contava todo o ódio que parecia tê-la consumido durante toda a noite enquanto me esperava. A vontade dela, era de dizer tudo que a estava engasgando, mas sabia que tinha limite a sua indignação e foi pro quarto sem dizer nada, mas, sabe-se lá por qual motivo, voltou e deu de cara com os CD's que eu havia pegado no quarto dela na mesa de jantar e esse foi o limite, não suportou e vomitou o discurso entalado.

Mas aquele discurso, dividia minha atenção com aquela presença ainda quente que orbitava pelos meus cabelos, rosto, pescoço. A sensação que eu tinha é que dormia, e que sonhava, e o discurso me acordava por breves segundos, mas o sonho era mais forte e me levava novamente, ele sonho, ela realidade. Ouvia apenas palavras soltas, sem atinar com o sentido, e voltava para o sonho, para ele, e de novo para ela, e o discurso... as palavras... sem sentido...e o sonho... e ela... e aquela presença...

A paixão que tomou conta do meu ser não tinha precedentes, e nada, absolutamente nada do que estava acontecendo ao meu redor importava.

Quase sete anos de luto, verdade era que não aguentava mais correr de um lado para o outro procurando explicação para aquela morte, não aguentava mais as tardes inteiras de cemitério, a literatura dura, difícil que eu consumia na tentativa de achar consolo, o sofrimento contínuo, as lágrimas, a dor! Sair daquilo era emergência, mas não via como pelas vias comuns, então inventei de inventar um amor.

Mas tinha que ser algo grandioso o suficiente para suplantar aquela perda, aquela dor sem precedentes. Havia de ser um amor que extrapolasse qualquer amor já inventado antes, e quando dei por mim, lá estava minha cria, e me entreguei sem reservas, e me perdi, e perdi também a covardia, e me arvorei de forte, e em forte me transformei, e pude então por fim às relações doentias que consumiam meus dias, e finalmente deixei o cemitério, o luto, a dor, pois que essa era mesmo a única coisa a fazer.

Quando o via aparecer ao longe, meu coração disparava e a força de gravidade desaparecia. Ficava assim planando, metros distante do chão, com o estômago fervilhando como se estivesse cheio de borboletas.

Poderia ter sido uma época perfeita, não fossem as culpas todas que me assaltavam, os remorsos e a péssima sensação de estar “trocando” o luto por um amor, mas apesar de tudo, ou talvez por causa de tudo, o que senti naqueles meses, e a marca indelével que ficou, guardarei como joia por toda vida.

Dias desses me peguei saudosista, imaginando como seria bom ter aquele tempo de volta, mas sei que isso seria impossível, afinal, os acontecimentos que marcaram nossas vidas, tanto os bons como os ruins, só tiveram a  importância que tiveram, por terem acontecido exatamente naquele momento de vida, que fazia de nós, sermos a pessoa que éramos.

Não existe mais em mim, um só resquício da pessoa daquela época, sou outra diversa daquela, teria, portanto, que ser outro tipo de invenção para dar conta dessa pessoa, desse momento de vida em que estou hoje.

De qualquer maneira, aquela receita, naquele momento, foi perfeita, e eu não me furtei, fora as culpas todas já citadas, vivi intensamente aqueles dias maravilhosos, proibidos, quentes, loucos, deliciosos, inesquecíveis!!



Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.
Clarice Lispector