- What the fuck?
- O Beto morreu!
- Isso eu já sei, e já faz dois dias, porque não parou de chorar ainda,
não aguento mais, fecha essa torneira, por caridade!
- O BETO MORREEEEEEEEU!
- Vinte anos de vida, um mês definhando e sofrendo cada dia mais, não
estava na hora?
- Como pode ser tão insensível?
- Ok, vamos destrinchar isso, o que está doendo tanto?
A pergunta me pegou desprevenida, o quê, ou, o porquê de estar doendo
tanto. Sou pragmática, fiz absolutamente tudo que estava ao meu alcance.
Comidas diferentes, remédios, dias inteiros de soro a cada meia hora, noites
mal dormidas acordando a todo e qualquer barulho para leva-lo ao banheiro, sim,
eu fiz tudo que o que era possível fazer.
Minha paciência resultava intacta, conseguiria levar aquilo por mais
quanto tempo fosse, mas meu coração não suportava mais, e tive que tomar aquela
dura decisão. Já havia marcado por duas vezes, mas somente na terceira é que
consegui, e enquanto esperava, a adrenalina que foi disparada em meu sangue, se
transformou num medo absurdo, que me tirou a possibilidade de respirar. Passei
a andar pela casa, respirando pela boca rapidamente, na tentativa desesperada
de fazer o corpo voltar ao normal, e assim, aos prantos, atravessei as longas
quatro horas que me separavam da hora final.
Quando conseguia me acalmar um pouco, conversava com ele, recordava
coisas pelas quais passamos juntos e o levava a janela para que se despedisse
dessa paisagem caótica que ele tanto gostava de ficar admirando.
Finalmente, quando chegou a hora, me despedi aos prantos implorando para
que ele me perdoasse.
E agora, depois de tudo acabado, não consigo mais parar de chorar,
porquê?
Isolda, essa velha descabelada, sábia, sonolenta, e indiferente passa a
vasculhar por todo meu interior a procura de resposta.
Tento argumentar fazendo perguntas superficiais: Acabo de passar por uma
morte, porque não posso chorar pelo tempo que quiser?
Mas ela implacável, não me ouve, continua a vasculhar papeis e gavetas,
a jogar coisas fora, até que encontra algo, e sabedora que eu sabia o conteúdo
do que achara, apenas espera meu pronunciamento.
Olho espantada para a descoberta e aí sim, desabo num sofrimento que até
então desconhecia, a dor da responsabilidade de ser obrigada a tomar uma
decisão sobre o término de uma vida, absolutamente sozinha, sem ajuda, porque
ninguém, absolutamente ninguém poderia compartilhar da minha decisão, ela era
apenas e tão somente minha, e aquele, foi um dos maiores pesos que aos sessenta
e três anos foi colocado em minhas costas.
Vê-lo definhar me enchia de pena, doía demais, mas eu teria parado após
o final, pois sabia que ele não sofria mais, mas o que doía agora, era a pena
de mim mesma, a pena por me saber tão fraca para coisas desse tipo e ter que me
transformar em forte para poder tomar a decisão, ah eu estava morrendo de pena
de mim!
- Olhei com raiva para ela. Satisfeita agora?
- Quando estiver satisfeita, estarei também, of course.
E resoluta continua fuçando minhas gavetas até novamente encontrar algo.
Maldito ego dos infernos!
Ah sim, olhei lá e lá estava: a zona de conforto da qual eu havia sido
arrancada. A deliciosa cama quentinha na noite chuvosa e fria. O trem havia
descarrilado, e ser OBRIGADA a sair na intempérie para recoloca-lo nos trilhos,
havia corroborado para me deixar naquele estado.
Isolda soltou um sorriso quase imperceptível, bateu com os dedos na
testa à guisa de continência, virou as costas e voltou para as profundezas, e eu
já nos trilhos, voltei a minha vida agora já em paz, mas cheia dos
questionamentos deixados pelo evento.
Esse foi o Sr. Beto, um gato antissocial, chatíssimo, que amei como se ama um filho, e que me deixou cinco meses antes de completar os seus vinte anos.
Que descanse em paz!
Esta consciência, que faz de todos nós covardes.
Shakespeare