Havia
três meses que o conhecia, mas aquela era a primeira vez que saíamos juntos.
Estava de luto há tantos anos, que ninguém mais se lembrava que atrás daquele
espectro que se arrastava pela casa havia ainda uma mulher.
Ela
estava me esperando sentada no sofá, invertendo os papéis, e quando entrei se
levantou, e disparou um olhar cheio de farpas, e a expressão facial contava todo o ódio que
parecia tê-la consumido durante toda a noite enquanto me esperava. A vontade
dela, era de dizer tudo que a estava engasgando, mas sabia que tinha limite a
sua indignação e foi pro quarto sem dizer nada, mas, sabe-se lá por qual motivo,
voltou e deu de cara com os CD's que eu havia pegado no quarto dela na mesa de
jantar e esse foi o limite, não suportou e vomitou o discurso entalado.
Mas
aquele discurso, dividia minha atenção com aquela presença ainda quente que
orbitava pelos meus cabelos, rosto, pescoço. A sensação que eu tinha é que
dormia, e que sonhava, e o discurso me acordava por breves segundos, mas o
sonho era mais forte e me levava novamente, ele sonho, ela realidade. Ouvia
apenas palavras soltas, sem atinar com o sentido, e voltava para o sonho, para
ele, e de novo para ela, e o discurso... as palavras... sem sentido...e o
sonho... e ela... e aquela presença...
A paixão
que tomou conta do meu ser não tinha precedentes, e nada, absolutamente nada do
que estava acontecendo ao meu redor importava.
Quase
sete anos de luto, verdade era que não aguentava mais correr de um lado para o
outro procurando explicação para aquela morte, não aguentava mais as tardes
inteiras de cemitério, a literatura dura, difícil que eu consumia na tentativa
de achar consolo, o sofrimento contínuo, as lágrimas, a dor! Sair daquilo era
emergência, mas não via como pelas vias comuns, então inventei de inventar um
amor.
Mas tinha
que ser algo grandioso o suficiente para suplantar aquela perda, aquela dor sem
precedentes. Havia de ser um amor que extrapolasse qualquer amor já inventado
antes, e quando dei por mim, lá estava minha cria, e me entreguei sem reservas,
e me perdi, e perdi também a covardia, e me arvorei de forte, e em forte me
transformei, e pude então por fim às relações doentias que consumiam meus dias,
e finalmente deixei o cemitério, o luto, a dor, pois que essa era mesmo a única
coisa a fazer.
Quando o
via aparecer ao longe, meu coração disparava e a força de gravidade
desaparecia. Ficava assim planando, metros distante do chão, com o estômago
fervilhando como se estivesse cheio de borboletas.
Poderia
ter sido uma época perfeita, não fossem as culpas todas que me assaltavam, os
remorsos e a péssima sensação de estar “trocando” o luto por um amor, mas
apesar de tudo, ou talvez por causa de tudo, o que senti naqueles meses, e a
marca indelével que ficou, guardarei como joia por toda vida.
Dias
desses me peguei saudosista, imaginando como seria bom ter aquele tempo de
volta, mas sei que isso seria impossível, afinal, os acontecimentos que
marcaram nossas vidas, tanto os bons como os ruins, só tiveram a
importância que tiveram, por terem acontecido exatamente naquele momento de
vida, que fazia de nós, sermos a pessoa que éramos.
Não
existe mais em mim, um só resquício da pessoa daquela época, sou outra diversa
daquela, teria, portanto, que ser outro tipo de invenção para dar conta dessa
pessoa, desse momento de vida em que estou hoje.
De
qualquer maneira, aquela receita, naquele momento, foi perfeita, e eu não me
furtei, fora as culpas todas já citadas, vivi intensamente aqueles dias
maravilhosos, proibidos, quentes, loucos, deliciosos, inesquecíveis!!
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível
de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.
Clarice Lispector