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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Recomeço

Havia três meses que o conhecia, mas aquela era a primeira vez que saíamos juntos.
Estava de luto há tantos anos, que ninguém mais se lembrava que atrás daquele espectro que se arrastava pela casa havia ainda uma mulher.

Ela estava me esperando sentada no sofá, invertendo os papéis, e quando entrei se levantou, e disparou um olhar cheio de farpas, e a expressão facial contava todo o ódio que parecia tê-la consumido durante toda a noite enquanto me esperava. A vontade dela, era de dizer tudo que a estava engasgando, mas sabia que tinha limite a sua indignação e foi pro quarto sem dizer nada, mas, sabe-se lá por qual motivo, voltou e deu de cara com os CD's que eu havia pegado no quarto dela na mesa de jantar e esse foi o limite, não suportou e vomitou o discurso entalado.

Mas aquele discurso, dividia minha atenção com aquela presença ainda quente que orbitava pelos meus cabelos, rosto, pescoço. A sensação que eu tinha é que dormia, e que sonhava, e o discurso me acordava por breves segundos, mas o sonho era mais forte e me levava novamente, ele sonho, ela realidade. Ouvia apenas palavras soltas, sem atinar com o sentido, e voltava para o sonho, para ele, e de novo para ela, e o discurso... as palavras... sem sentido...e o sonho... e ela... e aquela presença...

A paixão que tomou conta do meu ser não tinha precedentes, e nada, absolutamente nada do que estava acontecendo ao meu redor importava.

Quase sete anos de luto, verdade era que não aguentava mais correr de um lado para o outro procurando explicação para aquela morte, não aguentava mais as tardes inteiras de cemitério, a literatura dura, difícil que eu consumia na tentativa de achar consolo, o sofrimento contínuo, as lágrimas, a dor! Sair daquilo era emergência, mas não via como pelas vias comuns, então inventei de inventar um amor.

Mas tinha que ser algo grandioso o suficiente para suplantar aquela perda, aquela dor sem precedentes. Havia de ser um amor que extrapolasse qualquer amor já inventado antes, e quando dei por mim, lá estava minha cria, e me entreguei sem reservas, e me perdi, e perdi também a covardia, e me arvorei de forte, e em forte me transformei, e pude então por fim às relações doentias que consumiam meus dias, e finalmente deixei o cemitério, o luto, a dor, pois que essa era mesmo a única coisa a fazer.

Quando o via aparecer ao longe, meu coração disparava e a força de gravidade desaparecia. Ficava assim planando, metros distante do chão, com o estômago fervilhando como se estivesse cheio de borboletas.

Poderia ter sido uma época perfeita, não fossem as culpas todas que me assaltavam, os remorsos e a péssima sensação de estar “trocando” o luto por um amor, mas apesar de tudo, ou talvez por causa de tudo, o que senti naqueles meses, e a marca indelével que ficou, guardarei como joia por toda vida.

Dias desses me peguei saudosista, imaginando como seria bom ter aquele tempo de volta, mas sei que isso seria impossível, afinal, os acontecimentos que marcaram nossas vidas, tanto os bons como os ruins, só tiveram a  importância que tiveram, por terem acontecido exatamente naquele momento de vida, que fazia de nós, sermos a pessoa que éramos.

Não existe mais em mim, um só resquício da pessoa daquela época, sou outra diversa daquela, teria, portanto, que ser outro tipo de invenção para dar conta dessa pessoa, desse momento de vida em que estou hoje.

De qualquer maneira, aquela receita, naquele momento, foi perfeita, e eu não me furtei, fora as culpas todas já citadas, vivi intensamente aqueles dias maravilhosos, proibidos, quentes, loucos, deliciosos, inesquecíveis!!



Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.
Clarice Lispector