Costumamos achar que lutar
pela sobrevivência, nosso instinto primordial, consiste apenas em nos mantermos
vivos.
Para nós, seres humanos,
porém, sobreviver é estar no topo, em todos os segundos da vida, e isso
significa que somos os melhores em absolutamente tudo, e as redes sociais não
nos deixam mentir. Jamais declaramos que perdemos o controle, que bebemos demais, que fizemos errado seja lá qual coisa for, essa é a condição humana que nos
representa nos dias atuais.
Maquiamos nossas selves, o emprego, a mulher ou marido, o carro, a casa, a viagem, o restaurante e até o prato que comemos. Absolutamente tudo tem que ser perfeito.
Vivemos todos dentro dos estúdios de gravação do Show de Truman.
As páginas do Face, são
todas iguais, não importa de quem seja, todos estão fazendo exatamente as
mesmas coisas. Postando viagens, carros, restaurantes, amigos, fazendo biquinho,
se mostrando em poses de absoluta e total felicidade, simplesmente porque nos
acostumamos a fingir que estamos no topo para imitar os que realmente estão, e que convenhamos, são raros.
Desafios que não conseguimos vencer, já temos de sobra no trabalho, nos relacionamentos, no trânsito... Para que inventar mais um que afinal não está atrapalhando ninguém, e depois, todo mundo tem o programa e ninguém está se sentindo desafiado a desinstalá-lo, porque eu teria?
Quando chegamos já estava assim, e assim prosseguimos, e assim confessamos a nossa total falta de criatividade para reverter, afinal, confessar que estamos agindo feito robôs, nos tira do imaginário topo, então prosseguimos com nossas pseudo seguranças, que faz de nós cordeirinhos do rebanho, seres comuns, sem nenhum atrativo, sem nada de especial para mostrar às pessoas que estão à nossa volta, pessoas que estão fazendo e vivendo conosco a nossa história, essa história falsa das redes sociais.
POEMA EM LINHA RETA
Quem me dera ouvir de alguém
a voz humana
Que confessasse não um
pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma
violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se
os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo
que me confesse que uma fez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e
errôneo nesta terra?
Álvaro de Campos