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sábado, 22 de dezembro de 2018

EUTANÁSIA




- What the fuck?

- O Beto morreu!

- Isso eu já sei, e já faz dois dias, porque não parou de chorar ainda, não aguento mais, fecha essa torneira, por caridade!

- O BETO MORREEEEEEEEU!

- Vinte anos de vida, um mês definhando e sofrendo cada dia mais, não estava na hora?

- Como pode ser tão insensível?

- Ok, vamos destrinchar isso, o que está doendo tanto?

A pergunta me pegou desprevenida, o quê, ou, o porquê de estar doendo tanto. Sou pragmática, fiz absolutamente tudo que estava ao meu alcance. Comidas diferentes, remédios, dias inteiros de soro a cada meia hora, noites mal dormidas acordando a todo e qualquer barulho para leva-lo ao banheiro, sim, eu fiz tudo que o que era possível fazer.

Minha paciência resultava intacta, conseguiria levar aquilo por mais quanto tempo fosse, mas meu coração não suportava mais, e tive que tomar aquela dura decisão. Já havia marcado por duas vezes, mas somente na terceira é que consegui, e enquanto esperava, a adrenalina que foi disparada em meu sangue, se transformou num medo absurdo, que me tirou a possibilidade de respirar. Passei a andar pela casa, respirando pela boca rapidamente, na tentativa desesperada de fazer o corpo voltar ao normal, e assim, aos prantos, atravessei as longas quatro horas que me separavam da hora final.

Quando conseguia me acalmar um pouco, conversava com ele, recordava coisas pelas quais passamos juntos e o levava a janela para que se despedisse dessa paisagem caótica que ele tanto gostava de ficar admirando.

Finalmente, quando chegou a hora, me despedi aos prantos implorando para que ele me perdoasse.

E agora, depois de tudo acabado, não consigo mais parar de chorar, porquê?

Isolda, essa velha descabelada, sábia, sonolenta, e indiferente passa a vasculhar por  todo meu interior a procura de resposta.

Tento argumentar fazendo perguntas superficiais: Acabo de passar por uma morte, porque não posso chorar pelo tempo que quiser? 

Mas ela implacável, não me ouve, continua a vasculhar papeis e gavetas, a jogar coisas fora, até que encontra algo, e sabedora que eu sabia o conteúdo do que achara, apenas espera meu pronunciamento.

Olho espantada para a descoberta e aí sim, desabo num sofrimento que até então desconhecia, a dor da responsabilidade de ser obrigada a tomar uma decisão sobre o término de uma vida, absolutamente sozinha, sem ajuda, porque ninguém, absolutamente ninguém poderia compartilhar da minha decisão, ela era apenas e tão somente minha, e aquele, foi um dos maiores pesos que aos sessenta e três anos foi colocado em minhas costas.  

Vê-lo definhar me enchia de pena, doía demais, mas eu teria parado após o final, pois sabia que ele não sofria mais, mas o que doía agora, era a pena de mim mesma, a pena por me saber tão fraca para coisas desse tipo e ter que me transformar em forte para poder tomar a decisão, ah eu estava morrendo de pena de mim!

- Olhei com raiva para ela. Satisfeita agora?

- Quando estiver satisfeita, estarei também, of course.  E resoluta continua fuçando minhas gavetas até novamente encontrar algo. Maldito ego dos infernos!

Ah sim, olhei lá e lá estava: a zona de conforto da qual eu havia sido arrancada. A deliciosa cama quentinha na noite chuvosa e fria. O trem havia descarrilado, e ser OBRIGADA a sair na intempérie para recoloca-lo nos trilhos, havia corroborado para me deixar naquele estado.

Isolda soltou um sorriso quase imperceptível, bateu com os dedos na testa à guisa de continência, virou as costas e voltou para as profundezas, e eu já nos trilhos, voltei a minha vida agora já em paz, mas cheia dos questionamentos deixados pelo evento.

Esse foi o Sr. Beto, um gato antissocial, chatíssimo, que amei como se ama um filho, e que me deixou cinco meses antes de completar os seus vinte anos. 

Que descanse em paz!


Esta consciência, que faz de todos nós covardes.

Shakespeare