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sábado, 22 de dezembro de 2018

Aparecida Maria "Uma Ajudante"


A família de Aparecida Maria era composta de seis pessoas, e além do trabalho de cuidar de tanta gente, ainda lavava e passava camisas brancas de tricolina com o ferro aquecido com brasa de carvão, de seis homens de diferentes famílias, para ajudar no apertado orçamento.

Traumatizada pela perda das duas primeiras filhas, sapeava de cá pra lá em igrejas, sinagogas, centros espírita, nos mais recônditos lugares imagináveis em busca de proteção espiritual. Conversava animadamente com o marido quando ele estava em casa e fazia sexo todas as vezes que era solicitada, e quando alguém vinha pedir conselhos para o casamento que ia mal, ela sempre aconselhava a atender o marido na cama, segundo ela, o segredo para um casamento feliz, ideia que sustentou até a hora de morrer.

Dona de um temperamento rebelde, crítico, indócil e repressor, ajudava toda e qualquer pessoa que precisasse de ajuda, de doentes a parturientes, não se furtava, corria da casa dela para a casa do necessitado sem medir esforços, na tentativa de apaziguar o espírito crítico, rebelde, indócil e repressor que a habitava. 

Rezava por dias ou meses na cabeça de um doente, exortando o pobre povo do além que não tinha um minuto sequer de sossego com ela, a virem ajudar ou a deixar em paz a criatura, conforme o caso.

Quando morria, lavava o cadáver, vestia, penteava, e se fosse homem barbeava. Colocava o defunto em cima da mesa da cozinha ou de jantar e arrumava o caixão com as flores que havia mandado as crianças catar nos jardins e matos da vizinhança.

Durante toda a noite em que velavam o defunto, ela se desdobrava, puxando orações, fazendo e distribuindo café, consolando algum parente, ou contando alguns "causos" engraçados, segundo ela, para espantar o sono. 

Depois acompanhava a família até o cemitério, sempre rezando, e na hora da despedida fazia um bonito discurso. 

Depois, voltava para a casa do falecido, ajudava a limpar tudo, e depois tomava café animadamente, com as comadres na mesma mesa onde o falecido havia sido velado por toda a noite. 

Não devemos chorar nem sofrer pelos mortos, esse era o seu lema.