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terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Saudades de ninguém



Houve um tempo, beeeeem lá no passado, em que eu me sentia alguém.

Esse alguém, que eu sentia ser, vivia assoberbada de milhares de tarefas para fazer e assuntos para resolver.  Uma vida miserável, que me obrigava a ter planos, objetivos que me alavancassem para frente, para não enlouquecer. Achava que lá na frente, tudo se resolveria, e então eu poderia ser feliz e era essa certeza que me fazia crer que eu era alguém.

Hoje, já com os pés fincados no chão, sem neuras ou dores de qualquer espécie e a compreensão adquirida de que os objetivos não passam de mero engodo para nos distrair da dor dessa estúpida jornada sem sentido algum, entendo o quão ninguém eu era.

Espio então o passado com a nostalgia que espiamos uma guilhotina no museu, e não sinto saudade alguma daquele ser, tão inocente, tão ninguém!

Só o que se transforma continua meu amigo

Nietzsche







Aparecida Maria "A Benzedeira"


Uma das coisas que Aparecida Maria aprendeu a fazer para ajudar o semelhante, foi "benzer"

Apesar de benzedeira, ser o único nome possível dado a quem benze, ela odiava a alcunha, e fazia questão de demonstrar com todas as letras do alfabeto o quanto odiava.

Todos os dias aparecia pelos menos duas pessoas no portão pedindo por benzimentos. Se perguntavam: é aqui que mora a benzedeira? Pronto, ela virava um bicho, falava uma porção de sandices e fazia a pessoa voltar para o benzimento somente no outro dia: É para aprender a ter respeito! 

Caso a pessoa estivesse muito mal, e implorasse muito ela benzia no mesmo dia, mas fazia várias descomposturas primeiro.

Os  benzimentos serviam para qualquer tipo de queixa: afastar maus espíritos, arrumar emprego, curar quebranto, bucho virado, prisão de ventre, ar na vista, na cabeça, pé bichado, dor de dente, erisipela, etc, e ela não se furtava, se não houvesse um benzimento específico, não tinha problema algum, ela customizava algum na hora.

Conhecia também centenas de ervas que empregava para cortes e quebraduras. Fazia uma mistureba das ervas cruas, cozidas ou trituradas e colocava diretamente nos cortes ou enrolava em panos que amarrava nas quebraduras. Era como um curandeiro de tribo, "sabia" exatamente que erva usar para cada caso específico.

As pessoas nutriam por ela um profundo respeito, afinal, os subúrbios aquela época, eram selvas,
 sem uma farmácia que fosse por perto, suas ervas e rezas eram a única coisa com a qual as pessoas podiam contar, a ajuda que ela oferecia, portanto, não tinha preço. Não importava se iria resolver ou não, na hora do desespero, a única coisas que as pessoas precisavam era de alguém que fizesse algo. As vezes o doente morria, mas doentes morriam mesmo, em todo e qualquer lugar, ninguém a culpava, mas se conseguiam a cura, ela era a responsável, e a fama só fazia crescer.

Era convidada para tudo que era festa, madrinha de casamento e principalmente madrinha de crianças. Gabava-se de não saber a maioria dos nomes dos afilhados por já terem passado de cem. 


Ficava sempre envaidecida quando alguém a parava na rua para pedir benção porque era afilhado dela. Uma vez em especial, ela já passada dos oitenta anos, um padre a parou na volta da feira para lhe dar carona e dizer que era afilhado dela, esse dia, deve ter sido um dos mais importantes de sua vida. 

Quanta honra um afilhado se tornar padre!
contou essa história até o fim dos seus dias, apesar de ser espírita praticante.


sábado, 22 de dezembro de 2018

Aparecida Maria "Uma Ajudante"


A família de Aparecida Maria era composta de seis pessoas, e além do trabalho de cuidar de tanta gente, ainda lavava e passava camisas brancas de tricolina com o ferro aquecido com brasa de carvão, de seis homens de diferentes famílias, para ajudar no apertado orçamento.

Traumatizada pela perda das duas primeiras filhas, sapeava de cá pra lá em igrejas, sinagogas, centros espírita, nos mais recônditos lugares imagináveis em busca de proteção espiritual. Conversava animadamente com o marido quando ele estava em casa e fazia sexo todas as vezes que era solicitada, e quando alguém vinha pedir conselhos para o casamento que ia mal, ela sempre aconselhava a atender o marido na cama, segundo ela, o segredo para um casamento feliz, ideia que sustentou até a hora de morrer.

Dona de um temperamento rebelde, crítico, indócil e repressor, ajudava toda e qualquer pessoa que precisasse de ajuda, de doentes a parturientes, não se furtava, corria da casa dela para a casa do necessitado sem medir esforços, na tentativa de apaziguar o espírito crítico, rebelde, indócil e repressor que a habitava. 

Rezava por dias ou meses na cabeça de um doente, exortando o pobre povo do além que não tinha um minuto sequer de sossego com ela, a virem ajudar ou a deixar em paz a criatura, conforme o caso.

Quando morria, lavava o cadáver, vestia, penteava, e se fosse homem barbeava. Colocava o defunto em cima da mesa da cozinha ou de jantar e arrumava o caixão com as flores que havia mandado as crianças catar nos jardins e matos da vizinhança.

Durante toda a noite em que velavam o defunto, ela se desdobrava, puxando orações, fazendo e distribuindo café, consolando algum parente, ou contando alguns "causos" engraçados, segundo ela, para espantar o sono. 

Depois acompanhava a família até o cemitério, sempre rezando, e na hora da despedida fazia um bonito discurso. 

Depois, voltava para a casa do falecido, ajudava a limpar tudo, e depois tomava café animadamente, com as comadres na mesma mesa onde o falecido havia sido velado por toda a noite. 

Não devemos chorar nem sofrer pelos mortos, esse era o seu lema.

Aparecida Maria "A Leitora"



Aparecida Maria, teve uma infância difícil, como difícil deveria ser todas as infâncias à época.

Já adulta, quando apaixonou-se perdidamente não teve dúvidas, casou-se, largou a família e a cidade e veio parar em Sampa, com a ajuda de um dos irmãos.

Com vinte anos engravidou, e a primeira filha nasceu morta, depois de um trabalho de parto que durou sete dias, de dores inimagináveis.

Após um ano engravidou novamente, e a segunda filha morreu de pneumonia aos oito meses de idade.

As duas perdas seguidas deixaram-na prostrada, sabia que tinha que fazer alguma coisa, mas o quê, morando numa perfeita selva que era um subúrbio de Sampa em 1941.

Pediu então ao irmão mais novo, que passava um tempo com a família que a ensinasse a ler e escrever.

Virou uma leitora inquieta, devorando todos os livros que o irmão trazia.

Influenciada pelas leituras, passou a pesquisar freneticamente todo tipo de religião. Igrejas de todo tipo, centros espíritas, templos, sinagogas e até o Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, lugar que ensinava uma filosofia extremamente sofisticada, que obviamente ela não conseguia alcançar, mas que mesmo assim frequentou durante anos.

Levava os filhos junto para todos esses lugares, e conforme iam crescendo ela trocava pelo mais novo. Duas vezes por semana, passava mão em dos filhos e pegava o trem para ir a um destes lugares. Só não ia mais vezes porque o dinheiro não dava para a condução.

A vida tinha sido cruel com ela, precisava não só entender aquele sofrimento todo, como também se precaver para que não acontecesse mais.

Lia incansavelmente todo tipo de filosofia e religião, fazia as interpretações que a interessavam, e depois misturava tudo, acabando por fazer uma miscelânea formidável que só ela entendia. 

Achou nessas religiões, um modo de fazer contato com o povo do além, e deu à eles a responsabilidade de proteger a si mesma e a família de todo e qualquer mal, e nunca deixou de creditar a eles tudo que de bom acontecia em sua vida até morrer.


Uma pessoa se torna muito forte quando seu objetivo é proteger algo ou alguém.
Fallen Angel






EUTANÁSIA




- What the fuck?

- O Beto morreu!

- Isso eu já sei, e já faz dois dias, porque não parou de chorar ainda, não aguento mais, fecha essa torneira, por caridade!

- O BETO MORREEEEEEEEU!

- Vinte anos de vida, um mês definhando e sofrendo cada dia mais, não estava na hora?

- Como pode ser tão insensível?

- Ok, vamos destrinchar isso, o que está doendo tanto?

A pergunta me pegou desprevenida, o quê, ou, o porquê de estar doendo tanto. Sou pragmática, fiz absolutamente tudo que estava ao meu alcance. Comidas diferentes, remédios, dias inteiros de soro a cada meia hora, noites mal dormidas acordando a todo e qualquer barulho para leva-lo ao banheiro, sim, eu fiz tudo que o que era possível fazer.

Minha paciência resultava intacta, conseguiria levar aquilo por mais quanto tempo fosse, mas meu coração não suportava mais, e tive que tomar aquela dura decisão. Já havia marcado por duas vezes, mas somente na terceira é que consegui, e enquanto esperava, a adrenalina que foi disparada em meu sangue, se transformou num medo absurdo, que me tirou a possibilidade de respirar. Passei a andar pela casa, respirando pela boca rapidamente, na tentativa desesperada de fazer o corpo voltar ao normal, e assim, aos prantos, atravessei as longas quatro horas que me separavam da hora final.

Quando conseguia me acalmar um pouco, conversava com ele, recordava coisas pelas quais passamos juntos e o levava a janela para que se despedisse dessa paisagem caótica que ele tanto gostava de ficar admirando.

Finalmente, quando chegou a hora, me despedi aos prantos implorando para que ele me perdoasse.

E agora, depois de tudo acabado, não consigo mais parar de chorar, porquê?

Isolda, essa velha descabelada, sábia, sonolenta, e indiferente passa a vasculhar por  todo meu interior a procura de resposta.

Tento argumentar fazendo perguntas superficiais: Acabo de passar por uma morte, porque não posso chorar pelo tempo que quiser? 

Mas ela implacável, não me ouve, continua a vasculhar papeis e gavetas, a jogar coisas fora, até que encontra algo, e sabedora que eu sabia o conteúdo do que achara, apenas espera meu pronunciamento.

Olho espantada para a descoberta e aí sim, desabo num sofrimento que até então desconhecia, a dor da responsabilidade de ser obrigada a tomar uma decisão sobre o término de uma vida, absolutamente sozinha, sem ajuda, porque ninguém, absolutamente ninguém poderia compartilhar da minha decisão, ela era apenas e tão somente minha, e aquele, foi um dos maiores pesos que aos sessenta e três anos foi colocado em minhas costas.  

Vê-lo definhar me enchia de pena, doía demais, mas eu teria parado após o final, pois sabia que ele não sofria mais, mas o que doía agora, era a pena de mim mesma, a pena por me saber tão fraca para coisas desse tipo e ter que me transformar em forte para poder tomar a decisão, ah eu estava morrendo de pena de mim!

- Olhei com raiva para ela. Satisfeita agora?

- Quando estiver satisfeita, estarei também, of course.  E resoluta continua fuçando minhas gavetas até novamente encontrar algo. Maldito ego dos infernos!

Ah sim, olhei lá e lá estava: a zona de conforto da qual eu havia sido arrancada. A deliciosa cama quentinha na noite chuvosa e fria. O trem havia descarrilado, e ser OBRIGADA a sair na intempérie para recoloca-lo nos trilhos, havia corroborado para me deixar naquele estado.

Isolda soltou um sorriso quase imperceptível, bateu com os dedos na testa à guisa de continência, virou as costas e voltou para as profundezas, e eu já nos trilhos, voltei a minha vida agora já em paz, mas cheia dos questionamentos deixados pelo evento.

Esse foi o Sr. Beto, um gato antissocial, chatíssimo, que amei como se ama um filho, e que me deixou cinco meses antes de completar os seus vinte anos. 

Que descanse em paz!


Esta consciência, que faz de todos nós covardes.

Shakespeare

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Mana



Minha irmã do meio era a única pessoa que eu conhecia que sabia da minha existência, e isso para mim já era motivo de sobra para adorá-la!

Muito antes de eu entrar na escola, ensinou-me a ler e a escrever.

Trabalhava numa oficina de costura, e as sobras de tecido ela trazia para casa e fazia roupinhas para mim. Digo roupinhas porque como eram sobras, nunca dava para fazer mais do que um short  ou um tipo de mini blusa que não existia à época, e que, portanto, posso dizer sem sombra de dúvida, que ela foi a precursora dessa moda.

Enquanto eu era menina, se ela estivesse em casa, desistia dos folguedos todos, para ficar ao seu redor, ajudando-a nos seus afazeres.

Era uma moça miúda, frágil e linda!

À medida que fui crescendo fomos ficando cada vez mais amigas, e mesmo depois que de casadas, continuamos sempre muito próximas, por muitos anos.

Mas o pra sempre, sempre acaba, e um dia o trem descarrilou, e nós nos perdemos, e perdemos aquela relação que era tão importante para ambas, e embora tenhamos tentado por diversas vezes, nunca mais conseguimos recolocar o trem de volta aos trilhos.

De tropeção em tropeção, fomos colecionando rancores, por acharmos que eram imprescindíveis, e o tempo inexorável em sua marcha, deixando aquela amizade nas brumas, delineando as idosas solitárias que hoje somos.

As mágoas todas acumuladas, deixaram em meu ser a certeza de que infelizmente não há volta para tudo que deixamos para trás, em nome da vaidade, arrogância, orgulho, imaturidade...

 Hoje, olho o espelho e procuro com grande inter​esse as marcas que mudam a minha fisionomia dia por dia e penso que muitas delas eu poderia ter evitado, apenas pulando algumas partes tão absolutamente desnecessárias!

A juventude é fera indomável e suas vantagens e desvantagens formam montanhas de igual proporção.

O valor de uma coisa às vezes não está no que se consegue com ela, mas no que se paga por ela - o que ela nos custa.

Nietzsche

Linha torta


Costumamos achar que lutar pela sobrevivência, nosso instinto primordial, consiste apenas em nos mantermos vivos.

Para nós, seres humanos, porém, sobreviver é estar no topo, em todos os segundos da vida, e isso significa que somos os melhores em absolutamente tudo, e as redes sociais não nos deixam mentir. Jamais declaramos que perdemos o controle, que bebemos demais, que fizemos errado seja lá qual coisa for, essa é a condição humana que nos representa nos dias atuais.

Maquiamos nossas selves, o emprego, a mulher ou marido, o carro, a casa, a viagem, o restaurante e até o prato que comemos. Absolutamente tudo tem que ser perfeito. 

Vivemos todos dentro dos estúdios de gravação do Show de Truman.

As páginas do Face, são todas iguais, não importa de quem seja, todos estão fazendo exatamente as mesmas coisas. Postando viagens, carros, restaurantes, amigos, fazendo biquinho, se mostrando em poses de absoluta e total felicidade, simplesmente porque nos acostumamos a fingir que estamos no topo para imitar os que realmente estão, e que convenhamos, são raros. 

Desafios que não conseguimos vencer, já temos de sobra no trabalho, nos relacionamentos, no trânsito... Para que inventar mais um que afinal não está atrapalhando ninguém, e depois, todo mundo tem o programa e ninguém está se sentindo desafiado a desinstalá-lo, porque eu teria?

Quando chegamos já estava assim, e assim prosseguimos, e assim confessamos a nossa total falta de criatividade para reverter, afinal, confessar que estamos agindo feito robôs, nos tira do imaginário topo, então prosseguimos com nossas pseudo seguranças, que faz de nós cordeirinhos do rebanho, seres comuns, sem nenhum atrativo, sem nada de especial para mostrar às pessoas que estão à nossa volta, pessoas que estão fazendo e vivendo conosco a nossa história, essa história falsa das redes sociais.


POEMA EM LINHA RETA

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma fez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

Álvaro de Campos







terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Recomeço

Havia três meses que o conhecia, mas aquela era a primeira vez que saíamos juntos.
Estava de luto há tantos anos, que ninguém mais se lembrava que atrás daquele espectro que se arrastava pela casa havia ainda uma mulher.

Ela estava me esperando sentada no sofá, invertendo os papéis, e quando entrei se levantou, e disparou um olhar cheio de farpas, e a expressão facial contava todo o ódio que parecia tê-la consumido durante toda a noite enquanto me esperava. A vontade dela, era de dizer tudo que a estava engasgando, mas sabia que tinha limite a sua indignação e foi pro quarto sem dizer nada, mas, sabe-se lá por qual motivo, voltou e deu de cara com os CD's que eu havia pegado no quarto dela na mesa de jantar e esse foi o limite, não suportou e vomitou o discurso entalado.

Mas aquele discurso, dividia minha atenção com aquela presença ainda quente que orbitava pelos meus cabelos, rosto, pescoço. A sensação que eu tinha é que dormia, e que sonhava, e o discurso me acordava por breves segundos, mas o sonho era mais forte e me levava novamente, ele sonho, ela realidade. Ouvia apenas palavras soltas, sem atinar com o sentido, e voltava para o sonho, para ele, e de novo para ela, e o discurso... as palavras... sem sentido...e o sonho... e ela... e aquela presença...

A paixão que tomou conta do meu ser não tinha precedentes, e nada, absolutamente nada do que estava acontecendo ao meu redor importava.

Quase sete anos de luto, verdade era que não aguentava mais correr de um lado para o outro procurando explicação para aquela morte, não aguentava mais as tardes inteiras de cemitério, a literatura dura, difícil que eu consumia na tentativa de achar consolo, o sofrimento contínuo, as lágrimas, a dor! Sair daquilo era emergência, mas não via como pelas vias comuns, então inventei de inventar um amor.

Mas tinha que ser algo grandioso o suficiente para suplantar aquela perda, aquela dor sem precedentes. Havia de ser um amor que extrapolasse qualquer amor já inventado antes, e quando dei por mim, lá estava minha cria, e me entreguei sem reservas, e me perdi, e perdi também a covardia, e me arvorei de forte, e em forte me transformei, e pude então por fim às relações doentias que consumiam meus dias, e finalmente deixei o cemitério, o luto, a dor, pois que essa era mesmo a única coisa a fazer.

Quando o via aparecer ao longe, meu coração disparava e a força de gravidade desaparecia. Ficava assim planando, metros distante do chão, com o estômago fervilhando como se estivesse cheio de borboletas.

Poderia ter sido uma época perfeita, não fossem as culpas todas que me assaltavam, os remorsos e a péssima sensação de estar “trocando” o luto por um amor, mas apesar de tudo, ou talvez por causa de tudo, o que senti naqueles meses, e a marca indelével que ficou, guardarei como joia por toda vida.

Dias desses me peguei saudosista, imaginando como seria bom ter aquele tempo de volta, mas sei que isso seria impossível, afinal, os acontecimentos que marcaram nossas vidas, tanto os bons como os ruins, só tiveram a  importância que tiveram, por terem acontecido exatamente naquele momento de vida, que fazia de nós, sermos a pessoa que éramos.

Não existe mais em mim, um só resquício da pessoa daquela época, sou outra diversa daquela, teria, portanto, que ser outro tipo de invenção para dar conta dessa pessoa, desse momento de vida em que estou hoje.

De qualquer maneira, aquela receita, naquele momento, foi perfeita, e eu não me furtei, fora as culpas todas já citadas, vivi intensamente aqueles dias maravilhosos, proibidos, quentes, loucos, deliciosos, inesquecíveis!!



Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.
Clarice Lispector

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Retiro

Faltam cinco minutos para as oito da noite.

Quando cheguei, embora estivesse no horário, todos já haviam entrado, e como não havia ninguém à volta, fiquei extremamente atrapalhada, com a minha malinha na mão, sem saber o que fazer. Finalmente encontro um monge, digo que não sei o que fazer, e ele calmo e sorridente me diz quase num sussurro: Imite!

As dependências do templo são enormes, após me perder por diversas vezes pelos seus labirintos, encontro o lugar onde deixar minha mala, troco de roupa, e aceita a sugestão de imitar todos os outros.

Primeiro zazen, e a única coisa que consegui foi usar toda a energia que me restava de uma semana de muito trabalho, para não dormir.

No outro dia, 5,30 da manhã, sino tocando, chamando para o zazen. Levanto rápida, troco o pijama e tento me entregar a meditação, mas minha cabeça ainda na loja, em casa, nos meninos, no meu amor.

Esforço-me loucamente para desligar e estar presente, em me envolver com o objetivo do retiro, apenas estar ali, eu comigo mesma, mas é impossível, meu ser voa para sentimentos outros, loja, casa, filhos, apartamento e as pradarias desse amor insano que me faz estranha a mim mesma.

Aos poucos, porém, aquele ambiente silencioso vai me envolvendo e o mundo dos homens, aos poucos, ganhando distância, a aquele ambiente, aquele silêncio, o objetivo que me trouxe me envolvendo, minha respiração se fazendo presente, as dores no corpo pelo inusitado da posição, as pessoas e coisas que estão ao redor...

À tarde começa a chegar uma leva de japoneses, alegres, coloridos, cada um com um prato. Não sei qual é o evento, mas me parece uma palestra. Um deles toca um órgão e canta uma canção que parece vir de muito longe. 

Encostado em dos lados do templo, tem um prédio de apartamentos, e em um deles alguém está ouvindo Pearl Jam. Sentada na escadaria do templo, ouço encantada, o som da algaravia dos japoneses e sua música distante e estranha, que se confunde com Last Kiss. 

Sorrio para mim mesma, saboreando a total diferença dos sons e sua incrível coincidência.

Outro dia, outra leva de japoneses, desta vez tem crianças também, acredito que deve ter em torno de cem pessoas. Chegam cheios de pratos, salgados e doces, vão se sentando e falando pelos cotovelos, enchem as enormes mesas do salão do templo.

15:00 horas, sentamos todos para a cerimonia do chá. O silencio é absoluto no templo, só cortado de quando em vez por um carro que passa.

Uma paz enorme me envolve, um silencio dentro de mim que ainda não havia acontecido desde que cheguei aqui, e que me proporciona um enorme bem estar.  

Que escolha maravilhosa a minha, ter me decidido por esse retiro, poder descobrir que posso silenciar sem desesperar. Fiquei lá participando da cerimônia em paz por estar em paz. 

15:30 de novo na escadaria do templo, observo que chega mais gente para a “festa”. 

16:00 horas há uma cerimônia do templo e os japoneses começam a entrar em absoluto silêncio.

O templo, com os seus amplos janelões abertos , a linda madeira do chão absolutamente limpa e encerada, a arquitetura ímpar e o cheiro de incenso me fazem flutuar leve, como se eu estivesse longe do meu corpo. 

A monja começa a cerimônia e lentamente vou descendo a meu corpo, tomando contato com o que estava acontecendo ali, e mesmo sem saber exatamente o que era, as palavras dela foram aos poucos me picando como espinhos e e precisei fazer um grande, um enorme, descomunal esforço para não soluçar. 

Não conseguia atinar com o motivo, só sei que chorava e chorava e os meus esforços para parar eram totalmente vãos. 

Somente depois descubro, A cerimônia era para um rapaz que havia morrido há um ano. Como minha dor se confundiu com a deles, não consegui atinar.

Volto para a escada, o som do apartamento ao lado agora é de Belchior, Como Nossos Pais. Desaba um enorme temporal. Adentro para a enorme sala de palestras do templo, cheio de mesas e cadeiras, que os japoneses ocupam totalmente. 

Escolho um cantinho e fico observando o temporal pelos vidros enormes e ouvindo a algaravia ininteligível das pessoas. 

Meu ser vazio, sem tristeza, sem alegria, sem pensamentos. Presto atenção no barulho e penso que o barulho é uma só voz  que atende pelo nome de barulho. Quando fazemos parte do barulho, não podemos ouvir essa voz porque afinal, somos ela, mas naquele momento que meu ser era silêncio, eu podia ouvir claramente. 

Que diacho de retiro é esse, com uma barulheira dessas? 

Acho que é isso mesmo afinal, estar dentro de si mesmo, apesar do que está acontecendo ao redor, mas que será que comemoram?

De repente localizo uma moça com uma criança que estava no templo aos poucos vou localizando o restante das pessoas que lá estavam. Tem uma mocinha muito jovem , quinze anos se tanto, toda atarefada indo e vindo, recolhendo copos, lavando louças e fico conjeturando se seria possível uma cena dessas numa festa ocidental.

Meus olhos a perscrutar tudo, acabam por achar um casal meio envelhecido, e então compreendi, a comemoração era pelo aniversário de morte do rapaz, e aqueles eram seus pais. Me deu uma vontade enorme de ir lá abraçá-los e dizer que entendo.

Choro copiosamente, mas não sou notada, e as pessoas, aos poucos, começam a deixar o recinto junto com a chuva e em poucos minutos a sala está novamente vazia, exatamente do jeito que estava quando chegaram, nem uma cadeira fora do lugar, nem um papel no chão, nem um talher na pia. Quanto a aprender com esse povo!

22 horas, a monja me recebe numa sala com luzes de velas. Sinto-a imponente, mas próxima.
Pergunto o que aquelas pessoas comemoravam - os anos de vida que compartilharam com ele
O que tenho que aprender com a morte do meu filho? - impermanência!
Aquela noite dormi leve, sem sonhos.

Terceiro dia no templo, sinto-me em Avalon, a terra dos homens cada vez mais longe, e eu cada vez mais leve.

Início da noite, o zazen começa a pegar pontos cada vez mais dolorosos e profundos, daqui pra frente o meu trabalho fica cada vez mais árduo, difícil e lento. As questões do cotidiano começaram lentamente a se afastar e no domingo já não me pertenciam mais, estavam definitivamente do lado de fora do templo. Não me movimentavam, estavam fora de mim, parecia que não faziam mais parte do meu ser. Trabalhar as emoções assim fica muito mais fácil e eu penso que maravilha deve ser se internar mesmo num monastério por um ano por ex.

Novamente na escada ouvindo o rádio do apartamento ao lado, longe, como longe tocavam os sinos da igreja ouvidos em Avalon. Madona canta Celebration, e o inusitado daquele som naquele lugar me pareceu tão cool.

Quarta-feira, meio dia, meu amor me espera do lado de fora, despeço-me da monja dizendo que não tenho palavras, mas na verdade eu gostaria de ter dito à ela:

- Sra de Bushinjin, chame o barqueiro, faça descer as brumas que preciso voltar a terra dos homens.

Outras vezes voltei ao templo, para outros retiros, mas aquela primeira vez fora desse mundo, em outra dimensão, deixaram marca indelével!

Mas tudo isto revela uma grande simplicidade de espírito, porque podemos, sempre que assim o quisermos, encontrar retiro em nós mesmos. Em parte alguma se encontra lugar mais tranquilo, mais isento de arruídos, que na alma

Marco Aurélio

domingo, 11 de novembro de 2018

Vício


Quem assiste ou já assistiu novela sabe, que pode ficar uma semana  sem assistir nem um capítulo que na outra semana, em dois minutos é possível pegar  o fio da meada e o final da história será inevitavelmente o mesmo, assim é a vida, podemos pular várias partes sem que haja perigo de perdemos algo, ou prejudicar o final.

O diabo é que quem é viciado em novela, não consegue ficar sem assistir nem um minuto do capítulo diário, que dirá um capítulo inteiro e, assim também é a vida. Somos viciados. 

As coisas vão acontecendo, e nós, incapazes de pular um minuto sequer, vamos sofrendo como loucos, como se o nosso sofrimento pudesse mudar em alguma coisa o transcorrer ou final da história, e  depois de percorrido algum tempo, vemos que podíamos exatamente igual na novela termos pulado aquelas partes mais chatas que demoraram uma semana, quinze dias, um mês, e teríamos evitados um monte de rugas, cabelos brancos, baldes de lágrimas e um sofrimento intraduzível.

Não há nenhum acontecimento na vida, que possa ser pulado, temos que viver tudo, mas a frase de Drummond: A dor é inevitável, o sofrimento opcional, é perfeita e poderíamos nos lembrar dela como um remédio, uma terapia na hora dos acontecimentos. Viver o inevitável, mas pular a parte do sofrimento.   Colocar o sofrimento na gaveta e dizer: essa gaveta aqui só vou abrir daqui um mês, ou ano, dependendo do tipo de dor e continuar fingindo ignorância, fazer sozinho o que só se consegue com antidepressivos, jogar o sofrimento lá pra  frente, e durante a travessia do abismo ter em mente que o único objetivo é chegar do outro lado, olhando apenas pra frente, para não correr o risco de cair.

Passei um ano inteiro numa consumição, e hoje, alguns acontecimentos que quase me levam a uma atitude sem volta, se resolveram de maneira tão simples e favoráveis à mim, que quando me olho no espelho e vejo lá as marcas todas de noites e noites insones, sinto-me pequena e envergonhada.



E viver essa sabedoria, essa fase deliciosa em que preciso de tão pouco e que sei tanto!

O mundo está mudando, ou mudada estou eu?



Menopausa II



A menopausa se apresentou mim como uma madrasta das histórias infantis de outrora, e eu, a ela me submeti, exatamente como uma criança se submeteria, sem queixumes ou questionamentos, apenas peguei em sua mão e me deixei levar pelos seus escuros labirintos.

Começou com uma irritação leve, um descontentamento com tudo e com todos, que aos poucos foi se agravando. Um mal-estar indefinido que parecia se esconder no mais recôndito do meu ser, para aparecer em horas mais improváveis, gerando nas pessoas ao meu redor, estranheza, mal-estar e irritação.

Meu namorado, por estar mais perto de mim, foi quem mais sentiu as diferenças, mas, como era uma coisa sutil, que começou muito lentamente, aparecendo vez por outra, ele, assim como eu, foi também aos poucos incorporando as minhas grosserias e se acostumando com elas.

Nenhum de nós parou para pensar: caramba, isso não é normal, como pode de uma hora para outra uma pessoa se modificar e passar a ter um comportamento que nunca teve? 

Nosso relacionamento foi azedando aos poucos, pois aos poucos, ele começou a retribuir as patadas, até que conseguimos transformar uma relação maravilhosa em algo insustentável.

A distância foi ficando tão imensa, que o interminável assunto que tínhamos misteriosamente desapareceu e terminar aquilo foi a única possibilidade que me parecia decente. 

Sozinha pude ter a liberdade que queria de me deixar afundar naquela areia movediça, onde eu ficava semanas inteiras sem sair de casa, três e uma vez quatro dias, sem tomar banho. S
ó não afundei definitivamente porque o primeiro instinto do ser vivo é a sobrevivência.

Minha vida, se transformou num universo de dor, sofrimento, abandono, comiseração, ódio, rancor, e não sei dizer se esses sentimentos horríveis jaziam escondidos no mais recôndito do meu ser ou se nasceram a partir dessa situação horrível que vivenciei.

Mas as contas não se importam com doenças, seja lá de que tipo forem, então, passados dois meses, tive que abandonar o poço e procurar emprego e acabei conseguindo uma vaga de corretora numa construtora.

Essa empresa de escravos da era moderna, acostumada ao hábito de colocar o canudinho na jugular e beber direto, exatamente por isso acabou por ser minha salvação, pois era tudo que eu precisava para me afastar do poço, e foi o que aconteceu.

Trabalhei 14/16 horas por dia, direto e reto, de segunda a domingo, durante 6 meses ininterruptos, com apenas duas folgas e isso foi determinante para que eu me afastasse o suficiente do poço, para me esquecer do esquecimento que me impuseram, da dor que me atormentava, da morte que eu desejava.

Continuei deprimida, mas no meio de muita gente, muita festa, muitos jantares, cafés da manhã, shows, novos e lindos lugares, gente bonita, gente feia; gente legal, gente besta, enfim um mundo diferente de tudo o que eu havia visto e eu me enfiei de cara, e quando dei por mim, misteriosamente, estava na superfície, e de quebra, com algum dinheiro no bolso. 

Vitória!!

Não sabeis que só a disciplina da dor, da grande dor, é o que permitiu ao homem se elevar?

Nietzsche


sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Aparecida Maria "A Vidente"



Mãe e a filha tomam animadamente o café da tarde.

- Sabe quem eu vi ontem?

- Quem mãe?

- O Miguel, mas tava meio esquisito, passou direto, me deu a impressão que me viu, mas fingiu não ver sabe?

A filha faz um muxoxo e pergunta:

- Que Miguel é esse mãe?

- Ué, o filho da D.Generosa, quem mais!?

A filha, irritada, faz uma cara de quem está se contendo e anuncia:

- Que miguel Mãe, que Miguel, o Miguel está morto?!

A mãe segura a xícara no ar por uns minutos, o rosto todo um ponto de interrogação, sustém o ar, repousa a xícara no pires e inconformada pergunta:

- O que vc está me dizendo, o Miguel está morto?, como, quando foi isso, como não fiquei sabendo??

A filha já mais apaziguada responde:

- Deve fazer uns dois anos já, estava andando de bicicleta na marginal, um caminhão o pegou, morreu na hora.

Aparecida Maria levanta-se vagarosamente e começa a andar pela cozinha toda pensativa, como a casar pensamentos e de repente solta a pérola:

- Ahá, bem que eu vi que ele estava com jeitinho de morto! Agora eu entendi porque ele passou daquele jeito esquisito, como se não me conhecesse..., humm, ele está morto era isso então, agora sim, tá explicado!

A filha novamente irritada tenta se acalmar:

- Aonde a senhora o viu?

- Na Rua Maria Júlia, na calçada mesmo do Colégio Afonso Pena!

- Mãe, a senhora viu o Marcos, irmão gêmeo do Miguel, ele mora exatamente nessa rua, ao lado do colégio. A senhora se esqueceu do irmão?

- Você está louca? eu VI o Miguel, e disso, tenho certeza absoluta, não posso acreditar que você vai querer agora me convencer de que eu não vi o que vi!

 É boa essa, sessenta anos de espiritismo, e você acha que eu não consigo distinguir um morto de um vivo? Tenha dó!